TRIGGER WARNING: Cultura de estupro – Relato de um abuso.

Essa postagem se trata de um relato de abuso. O objetivo é trazer à tona a reflexão sobre a culpabilização da vítima. A questionar sobre a cultura de estupro que está presente. Pra quebrar com esses conceitos e começar a debater sobre o tema.
Aviso: Esse é um relato forte. Portanto, se você não está preparadx para ler algo forte como isso, aconselho a visitar nosso blog na semana que vem.
Amélia Autumn

 

Era o primeiro domingo de novembro de 2010, eu fui a um “churrálcool” (como gostam de chamar na minha cidade) com mais duas amigas minhas. Nesse mesmo dia eu participei de um festival, onde eu briguei com um amigo meu por ele dizer que eu devia parar de beber, “que não era coisa pra mulher”.

Chegando lá eu tomei uma dose de vodca misturada com meia lata de refrigerante. Tomei uma lata de cerveja. Tomei catuaba. Tomei vinho. Tomei tequila. A partir daí os relatos são de flashes meio confusos.

Lá pelas tantas da noite comecei a conversar com um garoto. Ele era da minha escola. Era amigo de uns amigos. Eu não lembro quem começou a conversa. Mas lembro de que depois de um tempo, nós estávamos sentados em duas cadeiras separadas, nos beijando. Lembro-me de uma luz bem na minha cara (era um flash de câmera fotográfica). Lembro-me de ser puxada (por um amigo) pra ficar em pé. Lembro-me de ser empurrada pra dentro da sauna da casa em que acontecia o churrasco (pelo mesmo amigo). Lembro-me do barulho do interruptor que apagou a luz.

E aí eu não me lembro de mais nada.

Lembro que, algum tempo depois, minha amiga abriu a porta da sauna e acendeu a luz, me chamando pra que a gente pudesse ir embora. Lembro da cara de horror dela. Lembro de olhar pra direção em que ela olhava. Lembro de ver sangue. Muito sangue contrastando com a parede de azulejo branco. Eu não estava menstruada. Eu tinha sido violentada. Vi mais gente entrando na sauna e saindo correndo, rindo. Senti minhas bochechas e meu colo queimarem com a vergonha e a humilhação. Minha amiga lavou logo o sangue da parede e nós fomos pra casa. Fui dormir logo pra não ter que lidar com a vergonha do acontecido.

No dia seguinte acordei sem vontade de levantar. Minha irmã, que já tinha ficado sabendo do acontecido, já tinha bolado um sermão que envolvia bebida, sauna, garoto desconhecido. Ela não queria que eu tivesse essa fama.

E então eu comecei a me arrepender. Não de ter confiado o suficiente pra entrar em uma sauna com um amigo dos meus amigos. Me arrependi por não ter me valorizado. Por ter bebido. E o filme da discussão com meu amigo começou a passar na minha cabeça e eu pensei que, sim, ele tinha razão: beber não é coisa de mulher. A mulher tem que ficar sempre no controle.

Eu convivi com esse peso por dois anos, me culpando por ter bebido demais. Por ter usado um short curto demais. Por me dar valor de menos. A ideia de que, talvez, aquela proximidade indevida e violenta que me arrancou sangue poderia ser categorizada como estupro passou pela minha cabeça. Mas eu nunca persisti com essa ideia. Porque eu aceitei. Eu bebi, usei um short curto, uma blusa decotada, beijei aquele cara, aceitei entrar na sauna. Ele não tinha culpa. Eu tinha.

E em 2012 eu entrei em contato com as ideias e os ideais feministas. Passei a entender, entre muitas outras coisas, o conceito de cultura do estupro. A cultura do estupro naturaliza qualquer contato indevido e violento. A cultura do estupro, que faz parte da cultura machista na qual estamos inseridxs, naturalizou o contato violento e indevido que eu sofri. A cultura do estupro naturalizou o sangue naquelas paredes. A cultura do estupro naturalizou o comportamento do meu agressor, os xingamentos que eu recebi, o repúdio que eu sofri, a marginalização que me foi imposta, a perseguição que acontece até hoje. A cultura do estupro tornou tudo que era pra ser absurdo em natural.

E essa cultura é perpetuada quando “aquela menina com roupa curta estava pedindo pra ser estuprada”. Quando “aquela menina devia saber que beber demais só pode dar em uma coisa”. Quando “ela estava andando sozinha por uma rua escura”. A cultura do estupro é perpetuada quando casos de estupro são naturalizados e/ou relativizados. A cultura do estupro se mostra presente quando boletins de ocorrência contra agressores sexuais é motivo de risada em delegacias mundo afora.

Valentina Altimari

2 comentários em “TRIGGER WARNING: Cultura de estupro – Relato de um abuso.

  1. Só gostaria de deixar registrado que aprecio muito que o blog tenha tido a sensibilidade de avisar o teor do texto. Acho um desrespeito absurdo e até fruto do machismo que não haja esse aviso nos espetáculos de entretenimento (livros, filmes, sérias, novelas, etc.).

    Acho que o Ministério da Justiça deveria estabelecer a obrigatoriedade disso.

    1. Agradeço seu comentário Luiza, e espero realmente que continue nos acompanhando e deixando seus pontos de vista registrados aqui.
      Nosso blog é colaborativo e toda opinião é muito bem vinda, mesmo que contrária.

      Amélia Autumn

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