Machismo nos games – Nós somos o que jogamos?

Recentemente tive meu feminismo questionado por ser jogadora de GTA. Antes de mais nada, gostaria de contextualizar o jogo. Existem vários GTAs e cada um conta a história do protagonista dentro do seu contexto. No San Andreas, fala de uma cidade separada por gangues que dominam determinadas áreas e o jogo de poder envolvendo essas gangues. No GTA IV, que é o jogo que estou jogando no momento, conta a história de um imigrante que chega nos Estados Unidos e começa a ganhar a vida como assassino de aluguel. No meio disso, existem histórias machistas, racistas, homofóbicas, termos inapropriados, violência, uso de drogas. 
Não é um jogo leve, não é um jogo politicamente correto. Mas também em momento algum faz alusão ou apologia à esse tipo de comportamento. Quem acompanha a história e entende o funcionamento do jogo, compreende que o que acontece é um retrato dos guetos, de determinadas sociedades suburbanas americanas. Os desenvolvedores, antes de lançarem o GTA IV, fizeram uma longa pesquisa sobre os comportamentos, gírias e “vida nas ruas” no jogo. A linguagem é pesada, a abordagem é agressiva, mas é um jogo relato. Você pode sim querer não colaborar com isso, você pode sim se abster de ter contato com esse tipo de cenário, mas considerar uma colega como “feminista demagoga” por jogar um jogo que retrata isso, seria correto?
Antes de mais nada, vou explicar a razão pela qual me interesso por esse jogo especificamente. A jogabilidade dele é incrível. Os gráficos são incríveis. As possibilidades de relações, de interações dentro do jogo, o mapa, enfim, é um jogo completo. E a história é interessante. Se envolve violência contra mulher e objetificação, é porque mostra um contexto real e cotidiano. Não são situações gratuitas inexistentes criadas exclusivamente para aquele jogo, são diálogos e contextos apropriados de uma história que permeia determinado grupo. Não estou dizendo, em hipótese alguma, que concordo e que devemos nos calar e deixar que isso seja perpetuado, mas questionar a militância de uma pessoa por essa razão é como questionar por ler Bukowski ou Pedro Juan Gutiérrez, que também viviam num contexto específico e retratavam uma realidade que viviam diariamente. É como insinuar que crianças que jogam jogos com tiros consequentemente vão se tornar assassinos.
Existem muitos games machistas. A indústria de jogos é feita com foco masculino, o maior consumidor de games é o público masculino e os games, na sua maioria, têm uma abordagem machista. É muito comum ver jogos onde mulheres são objetos. Jogos onde as personagens masculinas usam armaduras protetoras e as femininas usam micro biquínis (que dentro de uma lógica não faz sentido, que proteção um biquíni pode dar?). E aí eu me pergunto, onde reside o problema maior: em um jogo como GTA, que retrata uma abordagem direta de um contexto social, ou um jogo como World of Warcraft (que eu jogo também, diga-se de passagem) que coloca as personagens femininas usando roupas minúsculas em contraponto às masculinas? E o que fazer a respeito disso? Podemos sim boicotar ambos, e nos privar de jogar algo com uma história surpreendente e uma jogabilidade incrível, o que para quem é fã de jogos sabe o quanto é importante. 
Acredito que a militância nunca deve parar. Em todos os contextos em que estamos inseridas, devemos nos questionar e nos perguntar se estamos colaborando com a cultura e perpetuação do machismo. Mas também me pergunto qual a melhor solução para algo tão arraigado, e como resolver de uma forma mais direta. E principalmente, acusar as colegas e questionar o seu ativismo, é algo muito grave. Sororidade é uma palavra que não deve sair de nosso vocabulário.

Katrina Gordon

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