Valesca, funk e feminismo

Há uma grande polêmica circulando a internet, quando dizemos algo sobre Valesca, relacionado ao feminismo.
E aí, levanto algumas questões bem importantes, que acredito serem fundamentais de fazermos antes mesmo de entrarmos no assunto ‘Valesca é feminista’?
Antes de mais nada, deixe seu preconceito musical de lado.
Quando falamos sobre cultura, percebo uma visão elitista acerca dessa definição. Mas existem dois tipos de cultura: A popular, e a Erudita.
Para Luiz Gonzaga de Mello, “a cultura, em sentido largo é todo o conjunto de obras humanas”, portanto, a cultura não é apenas aquilo produzido pela elite, e sim, aquilo tudo produzido por um povo, por uma tribo, por um grupo.
O funk faz parte da cultura popular do Brasil, e tem alcançado grandes públicos. Mas o nome que mais tem chamado a atenção, é o de Valesca.
Mulher, Valesca canta letras que chocam, que escancaram uma coisa que há muito, é encarado pela sociedade machista e patriarcal, como algo ofensivo, sujo, errado: O desejo feminino.
Será que vem daí então, o incomodo com as letras do funk?
Sabemos que a objetificação do corpo da mulher e de sua sexualidade existem desde os primórdios. Prova disso é o sucesso que faziam as figuras das pinups nos anos 50, o corpo feminino nas pinturas renascentistas, etc. Historicamente a mulher é retratada de diversas formas, mas desde os primórdios, o corpo da mulher é tido como pecaminoso, impuro.
Venho então levantar três questões que considero importantes para nossa reflexão: Qual é a problemática do funk? Qual o papel da Valesca dentro do feminismo? E a objetificação da mulher?
A primeira questão, que se refere a problemática do funk, a meu ver é bastante simples. O elitismo, o preconceito e o racismo. Funk é sinônimo de música de “preto favelado”, com letras grosseiras e apologia ao sexo. Mas aí me pergunto, e o rock? E a MPB? E o sertanejo? Estilos tido como da elite também possuem letras vazias, com apologia ao sexo, conteúdo grosseiro. Também tratam a mulher como objeto simples direcionado ao prazer do homem. Também ensinam como se ‘conquistar’ (porque não consigo imaginar uma outra palavra para encaixar aqui) uma mulher e a levá-la pra cama. Mas o que incomoda é o escancarado, o literal, aquilo que não foi produzido pela elite e para a elite.
A segunda questão é o foco do texto. Valesca é uma mulher funkeira que ganhou grande destaque com sua música. Uma mulher que escancara seus desejos e empodera a mulher. Que traz à tona a questão da sexualidade feminina, do desejo, da autonomia do próprio corpo. Em uma de suas letras, Valesca diz “Eu vou te dar um papo/Vê se para de gracinha/Eu dou pra quem quiser/Que a porra da boceta é minha”.
Sei que o funk possui algumas letras ofensivas e grande teor objetificador, mas ver uma mulher, falar sobre seu próprio corpo de maneira livre é sim, empoderador para todas as mulheres.
Além do mais, Valesca dá voz à mulheres da periferia, mulheres que não são ouvidas, que vivem uma realidade diferente da minha, da sua, de muita gente.
Ela tem um papel importante, que é o de empoderar essas mulheres, de se comunicar com elas e mostrar que o funk é pra elas também, que o funk é pelas mulheres.
E quando falo da objetificação que acontece dentro das artes no geral, é preciso também olhar para aquilo que é produzido pela elite. A objetificação acontece tanto quanto.
É preciso tomar cuidado e não confundir gosto musical pessoal com o preconceito que está enraizado.
A Valesca é sim, uma pensadora contemporânea. E no meio de tantos “Gênios”, como Olavo de Carvalho, Lobão, ela é a mais sóbria.
Mas aí venho levantar outra questão que considero de suma importância, e deixo para reflexão para um outro texto. Será que “a porra da buceta é minha”? Será que, na sociedade que vivemos, eu tenho direito sobre meu corpo?Imagem

Texto por Amelia Autumn

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