Relato: Racismo

O texto foi escrito por Gabriella Jude e enviado para nós como um relato sobre o racismo.

 

Hoje na faculdade, a professora sugeriu que fizéssemos uma colagem com aquilo que nos contemplasse, que gostássemos muito, que nos representasse (eu curso Artes Visuais). Adoro colagens, e embora houvesse anos que eu não fizesse nenhuma, corri para recortar revistas. Depois de 10 revistas folheadas e vasculhadas, encontrei o total de UMA ÚNICA mulher negra. A Halle Berry. Uma atriz que é fantástica, mas semidesconhecida pelos jovens atuais, até por ultimamente estar mais velha. Me irritei e saí da sala.
Bom, eu sou uma mulher negra, lésbica e feminista. Eu sofri (e sofro de recaídas) por muitos anos com distúrbios alimentares sérios. Eu era bulímica. Tenho transtorno de autoimagem. Com 17 anos eu conheci o bodypositive* (movimento que busca a auto aceitação, auto amor, enfim, que enxerguemos nossos corpos fora do padrão de maneira positiva). Ele me ajudou bastante. Mas não o suficiente.
Vejo amigas minhas brancas que realmente conseguem se amar e se empoderar nesse meio. Não acho isso ruim de forma alguma. Padrões de beleza em geral são opressores, chegam a ser extremamente cruéis. Padrões de beleza não são sobre mulheres bonitas, de forma alguma, mas sobre mulheres obedientes. Resistir e não render-se a esse padrão, não se adaptar, enxergar o belo além dos que nos foi imposto (isso é feio, isso é ruim; isso é bonito e bom) é uma conquista gigantesca para as mulheres.
Mas para quais mulheres?
O que eu estou tentando dizer é que desde pequena eu venho sido humilhada pelo meu cabelo, pela cor da minha pele e odiado a minha boca e meu nariz. Desde pequena, quando escuto minhas amigas (brancas) reclamando de seus “defeitos”, eles quase sempre são: nariz largo, cabelo armado, frizzado. Desde adolescente eu vejo minhas amigas brancas, quando insatisfeitas com algo no seu visual, pintarem o cabelo e eu ouvindo que nenhuma daquelas cores combinariam com meu tom de pele. Batom? Nem pensar. Eu estava resignada a me sentir feia. 
E então eu acho ótimo que meninas aceitem seus pesos e se amem. Eu também aprendi a fazer isso. 
Mas nem sempre. 
Quando eu acordo me sentindo “gorda” (e eu não sou uma pessoa gorda. Meu distúrbio alimentar + remédios + depressão me fizeram emagrecer quase 20kg), porque estou inchada ou barriguda ou algo assim, eu tento verbalizar isso. E então vem a patrulha do bodypositive. Eu nem preciso dizer qual a cor dessa patrulha.
“Você não é só um número, gorda não é ruim, você não é o seu peso”.
Mas e gorda e preta? Quantas piadas sobre mulheres negras e gordas eu não ouvi em toda a vida? Comentários cruéis e pejorativos vindo de meus próprios amigos? Eu sinto medo. Eu sinto dor. 
Pode ser gorda, mas não pode ser preta.
Pode ser preta, mas não pode ser gorda.
Com relação à depilação, a mesma história. Vejo meninas empoderadas e orgulhosas de seus pelos corporais e isso me deixa sempre feliz. E então me perguntam: por que você não faz o mesmo? Se é assim contra a ditadura da beleza, por que não faz o que prega? Cobranças e cobranças. Porque, veja bem, porque eu não sou um mártir. Porque eu não SUPORTARIA os olhares de repulsa. Os olhares que mulheres brancas com seus pelos finos nas pernas recebem, eu recebo sem precisar fazer absolutamente nada.
Eu sinto uma dificuldade imensa em entrar em tumblrs e sites sobre orgulho gordo ou sobre a naturalização de pelos corporais, onde colocam fotos de meninas felizes com seus corpos e elas são quase sempre brancas.
Não existem mulheres negras em hollywood. As mulheres negras da indústria pop são uma minoria ridícula. Como nos sentirmos pessoas bonitas se em livros, filmes, revistas, bandas famosas e seriados nunca existem pessoas como nós? Se a menina excluída e esquisita daquela série é branquinha e sardenta, de nariz fino, cabelo liso? Onde estamos nós? Onde estão os seres com a nossa imagem e semelhança? Estão nos clipes de funk, nas favelas, estão sendo ridicularizados e expulsos de shoppings.
Não me forcem a me sentir bonita.
Não me faça sentir culpada por não me sentir bonita quando a lista das suas ex namoradas são de meninas branquinhas de cabelos longos e lisos, sardentas, alternative nerdy girl. Não me importo se você me acha linda, não me importo se você me acha “exótica”. 
Nossa revolução é diferente.
E aqui fica registrado o meu choro e o meu grito.

 

2 comentários em “Relato: Racismo

  1. Chega a ser doloroso como me identifico com o texto. A unica coisa que me difere dela é o fato de eu não ser lésbica. Mas os olhares, os apelidos, essa coisa de “exótica” doem tão profundamente que não há nada mais que possa ser dito, além do fato de nossa negritude ser terra de ninguém.
    E quando eu falo algo, dizem: você é morena, não é negra. Seu cabelo é bom, por que reclama?
    Sou uma mistura de negros e índios, como a maiora do país, bem miscigenada. E isso faz as pessoas acharem que a palavra exótica é um elogio. Não. Não é. Ser chamada de exótica é o mesmo que dizer: “você é estranha, diferente. Meio feia, meio bonita. Uma coisa diferente”.
    Mas eu não sou coisa, sou humana. Sou um ser que sente, que pensa, que se revolta com as diferenças.
    Até em blogs feministas com gordas falando e se empoderando vemos elas dizerem: Não sou padrão de beleza, sou gorda. Aí elas defendem as gordas, mas esquecem que também somos mulheres e que podemos ser gordas ou magras, de cabelos crespos, cacheados ou esticados, mas somos negras.
    Minha sororidade a ela e todas que sentem na pele.

  2. Nem posso imaginar os perengues que passam, sou parda e já não é fácil, ser lésbica/bi e gorda seria tenso.
    Minha mãe é branca e loira, meu pai é negro. (e, como devem imaginar, não admite que é) Infelizmente, minha mãe continua tentando me “esbranquiçar”. (Família que trabalha na área estética, já deve imaginar)
    Nunca tive problemas com a minha aparência, sempre me achei bela, mesmo com toda a propaganda. O problema foi quando homens começaram com isso, também essa de “Você é morena, não parda”, “seu cabelo é cacheado, mas é muito bonito” e “Que bom que você não tem aquele nariz de batata, não?”.

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