Agosto, o mês da visibilidade lésbica

Este mês é o mês da visibilidade lésbica. Por conta disso, iniciamos uma série de publicações que irão ajudar a esclarecer e combater a lesbofobia, que mata cada dia mais.

 

Estamos no mês da visibilidade lésbica. E este mês só é colocado desta forma, porque há a necessidade de dar foco àquilo que é colocado à margem; àquilo que a sociedade finge não existir. Para entender melhor sobre este fenômeno, temos que pensar numa sociedade pré-noção e militância LGBT, devemos pensar numa sociedade que ainda não possuía categorias específicas para lidar com as sexualidades fora da norma heterossexual. O mundo pré-noção LGBT era um mundo estruturado de forma bem semelhante ao nosso: os homens possuíam o poder e a educação; as mulheres eram subjugadas e colocadas enquanto ferramenta de prazer e desfrute masculino (seja sexual, seja num universo material – de favores domésticos, por exemplo). O saber estava concentrado em mãos masculinas e foram estas mãos que escreveram textos teóricos e que tentavam provar empiricamente as funções, ações e reações do universo feminino. Neste mundo de mulheres sem voz, os homens analisavam o corpo feminino em um modelo adaptativo do seu próprio, acreditando que, aquilo que chamamos de ovários eram testículos e que o clitóris não passava de um micropênis subdesenvolvido. Desta forma, foi constituída a noção de um corpo feminino monstruoso; como um homem com defeito, que guardava seus órgãos reprodutores de forma interna por não terem tido força para se tornarem externos durante a gestação. Neste sentido, como este corpo anômalo poderia ser responsável pelo prazer de outrem? As narrativas sexuais eram falocêntricas a ponto de não considerar o corpo feminino como fundamental num ato sexual entre homem e mulher. A mulher só aparecia como parte fundamental na reprodução, mas, ainda assim, como menos fundamental e importante que o homem. Se, já no século XIX se acreditava que o orgasmo masculino era o responsável pelo prazer feminino (o gozo do homem fazia o corpo feminino convulsionar e experimentar o êxtase sexual), o que se poderia dizer sobre a possibilidade de relações afetivo-sexuais entre mulheres nesta época, ou antes dela? Durante a Inquisição moderna, os chamados “desvios sexuais e morais” também foram julgados pelo Santo Ofício. Neste momento, não havia a classificação “homossexual”, que conhecemos atualmente. O termo empregado era o de “sodomita” ou “somítigo”. A sodomia não era uma característica pessoal relativa às preferências sexuais e afetivas dos indivíduos, mas, a prática de um ato sexual chamado de “antinatural” por não ter função reprodutiva – era um crime, um pecado e um vício. Assim, a sodomia poderia ser masculina (sexo entre dois homens), feminina (entre duas mulheres) ou mista (sexo entre homem e mulher com penetração anal). Mas, tanto não se entendia sobre as funcionalidades do corpo feminino, que logo a sodomia feminina parou de ser perseguida por alguns tribunais inquisitoriais. Em 1591, houve a primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil. Nele, foram registrados alguns relatos de relações somítigas entre mulheres. O inquisidor responsável pela visitação preferiu ignorar, em sua maioria, as denúncias feitas, só abrindo processo contra aquelas mulheres que tinham envolvimento com diversas outras mulheres e que estes casos eram de conhecimento público. Este foi o caso de Felipa de Sousa. Felipa de Sousa é uma mulher-marco ao se falar sobre envolvimentos afetivo-sexuais entre mulheres no Brasil. Em seu processo inquisitorial, consta que “…a dita ré Felipa de Sousa pecar o horrendo e nefando crime de sodomia, pecado contra a natura, com muitas mulheres, assim casadas, como solteiras, por muitas vezes, em diversos tempos, sendo ela, ré, ora agente íncuba, ora paciente súcuba, consumando algumas vezes o dito pecado nefando com o cumprimento natural de semelhantes atos como se fossem naturais, ajuntando ela, com as outras mulheres cúmplices, seus vasos dianteiros. E, tendo suas deleitações abomináveis ela, com outras mulheres. E, consta a ré ser acostumada a namorar mulheres, requestando-as com cartas de amores e com recados e presentes. E as provocar ao dito abominável pecado e dar-lhes abraços e beijos com intenção torpe e desonesta e abominável. E gabar-se de tão horrendos pecados que cometia, nomeando as mulheres com quem os cometia, os quais horrendos pecados de sodomia cometeu, ajuntando-se com as outras mulheres sem haver algum instrumento penetrante. O que tudo fez com pouco temor de Deus, esquecida da salvação de sua alma…”. Felipa de Sousa foi degredada e chicoteada em praça pública. Pena leve, se considerarmos que a sodomia era passível de pena pela fogueira. Os historiadores especialistas no tema alegam que era justamente a falta de conhecimento acerca do corpo feminino que representou esta pena tão branda – que acabou sendo regra –, afinal, se as mulheres não eram capazes de causar prazer uma para a outra, a pena de morte seria uma punição desproporcional. Além disso, uma pena como esta seria a confirmação do que para uma sociedade misógina é impossível de se afirmar: que mulheres são capazes de se satisfazerem sexualmente sem a presença masculina, ou, ainda, sem instrumentos fálicos. Estas noções permanecem vivas. A invisibilidade lésbica, como conhecemos atualmente, se dá por esta mesma certeza sedimentada culturalmente nas sociedades ocidentais: não há sexo nem real prazer sexual sem falo. Neste sentido, tratam de forçar o envolvimento afetivo-sexual de lésbicas com homens heterossexuais; se argumenta que uma mulher só pode se declarar enquanto lésbica se já teve envolvimento sexual com homens, mas, se ela argumenta já ter tido estas relações, a classificam enquanto bissexual e colocam que ela não experimentou “homem de verdade”. Devemos, inclusive, destacar que este fenômeno não ocorre com homens homossexuais, isto porque há falo nestas relações e a cultura misógina não consegue duvidar da legitimidade do sexo que envolve pênis. A invisibilidade lésbica é um dado que ocorre em sociedades machistas e de ódio às mulheres: esta sociedade que naturaliza a norma heterossexual não consegue perceber a sexualidade feminina como não subserviente do prazer masculino. Aqui, apenas as mulheres lésbicas transgressoras que se caracterizam fortemente dentro de uma padronagem masculina conseguem ser percebidas – mas, assim como são vistas, são depreciadas e humilhadas pela regra geral da cultura hétero. As lésbicas consideradas “femininas” são fetichizadas e colocadas como objeto de cobiça dos homens que, para além de desejarem performar a “cura lésbica” por meio de seu falo irresistível, sonham com o ato sexual que envolve duas mulheres cobiçando o seu falo. As lésbicas, também por esta característica fetichizante atribuída pelos próprios homens e sedimentada pela indústria pornográfica, correm o risco do chamado “estupro corretivo”, que consiste no estupro “justificado” com o discurso de “cura lésbica”. Mais uma vez, o falo aparecendo com propriedades mágicas e curativas. A invisibilidade vem atrelada com uma série de violências, físicas, psicológicas e sexuais. Ela aparece como expressão máxima do ódio e da falta de desejo de entendimento das características sexuais femininas e de seu livre arbítrio sexual. Negam o direito da mulher à sexualidade lésbica porque negam a existência da mulher como ser independente das propriedades e vantagens que administram aos homens. A lesbiandade não pode existir no modelo patriarcal porque ela nega o homem como centro do mundo e coloca a mulher neste local de privilégio em relações afetivas e sexuais. A luta pela visibilidade é a luta pelo fim de explorações, de violências e da noção de que mulheres foram feitas para servir aos homens como eles bem entenderem. A luta pela visibilidade é a luta pela emancipação. Ela é importante porque, enquanto visíveis, podemos denunciar aquilo que nos machuca e defender nossos direitos. Visíveis, nós existimos.

Texto por J Lo Borges10373656_523538921085651_425333773149064903_n

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s