Três vezes. E só isso.

No dia em que eu escrevo esse post, faltam 13 dias para eu ir embora da Irlanda. Depois de (praticamente) um ano nesse país, eu posso dizer que metade de mim gostaria de ficar para sempre. A outra metade sente saudade de vários aspectos da minha vida no Brasil.

Para ser bem sincera, o que eu mais sinto saudade do Brasil são os pequenos confortos que eu tinha. O conforto da cama de casal, de ter pais que me levavam à vários lugares de carro, de ter alguém que fizesse a minha comida e/ou lavasse a minha louça depois… São pequenos luxos que aqui na Irlanda eu vivo completamente sem. Foi um ano dormindo em cama de solteiro, andando muito à pé e fazendo minhas próprias marmitas para não ter que ficar comendo fast-food todo dia (e lavando toda a louça depois).

Mas se tem uma coisa que eu vou realmente sentir falta da Irlanda, realmente mesmo, é a paz de andar na rua.

Como assim, Olívia?

Todos os dias, eu vou e volto do meu estágio a pé. São, praticamente, 1h30 de caminhada entre minha acomodação e minha universidade. Eu geralmente vou com uma calça de ginástica, daquela que molda no corpo, camiseta e uma blusa.

E eu nunca precisei colocar uma blusa amarrada na cintura para disfarçar a bunda.

Porque aqui, mexeram comigo na rua três vezes em um ano.

Vocês tem noção da maravilha que é isso?

É claro que o ideal seria que nunca tivessem mexido comigo nem nada, mas quando você leva inúmeros assédios no caminho de 15 minutos entre a sua casa e a academia no Brasil, três vezes em um ano é uma benção.

Eu consigo lembrar de todas as vezes que mexeram comigo na rua durante o ano. No Brasil, eu mal conseguia lembrar de todas as vezes que mexeram comigo no dia. E eu posso dizer com a boca cheia que esse é o principal motivo pelo qual eu nunca gostaria de ir embora da Irlanda (e da Europa em geral). A comida boa e barata, os ambientes amigáveis, a universidade que é cenário de filme… nada, nada me deixa com o coração mais apertado do que ter que deixar para trás esse liberdade de ir e vir sem ser atormentada.

A liberdade de poder andar do centro da cidade até em casa à noite com a certeza de que eu vou chegar em segurança.

A liberdade de passar por um grupo de homens bêbados e saber que eles não vão me atormentar em nenhum instante.

A felicidade que me dá ao ver várias meninas muito bêbadas e nenhum homem se aproveitando disso.

A educação que um povo dá aos seus homens, de que as mulheres não são objetos, e sim pessoas, com sentimentos e vontades próprias.

Espero que, um dia, eu também possa sair do meu Brasil e dizer que sinto falta de não ter o machismo cerceando meu direito basiquinho.

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