Autor: womansplaning

Reapresentação e uma nova equipe

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Antes de mais nada, esse é um post curtinho apenas para explicar o fato de não atualizarmos o blog há algum tempo, e também falar sobre as mudanças visíveis que aconteceram no blog (e outras não tão visíveis assim, mas que vocês vão sentir).

Peço desculpas, mas esse tempo de hiato foi necessário para reorganizar a minha idéia sobre o blog, sobre a estrutura e inclusive a aparência dele (O design tá lindíssimo e é culpa da Carol!).

Agora contamos com uma nova equipe que está cheia de idéias bacanas e muita vontade de fazer postagens bem bacanas e especiais. Nosso blog agora é dividido em seções para facilitar o acesso aos diversos conteúdos que pretendemos postar.

Também temos um espaço voltado pras minas que tiverem lojinhas virtuais, bandas que queiram divulgar, então é só entrar em contato com a gente através da inbox na nossa página no facebook (https://www.facebook.com/Womansplaning? ref=ts)  ou através dos comentários aqui (também temos twitter! https://twitter.com/womansplaining_) e passar os dados certinhos que a gente divulga no nosso cantinho especialmente criados pra vocês artistas! (vale comida, camisetas, artes de todos os tipos, música, e até serviços de doulas, cat/dogsitter, etc).

Contamos com uma equipe cheia de energia que está preparando muitas coisas legais pra vocês. Textos sobre o universo nerd e o feminismo, relatos que vocês mesmas podem enviar pra gente na nossa seção especial, traduções de materiais sobre feminismo, tudo isso e muito mais!

Espero que gostem da nova formulação do blog e continuem nos apoiando!

Um beijo, Nanda.

Capacitismo, saúde mental e militância virtual.

Vamos falar sobre saúde mental e capacitismo.
Pelo titulo sei que essa postagem não parece estar relacionada ao feminismo, mas ela está diretamente ligada a nossa vivência enquanto militantes feministas.
Vejo dentro dos ambientes virtuais de militância e acolhimento, diversas mulheres que sofrem de graves transtornos mentais como depressão, bipolaridade, borderline, entre tantos outros, que acabam se agravando e por conta disso, se afastando dos meios de construção e militâncias virtuais.
Muitas dessas mulheres que procuram esses grupos, o fazem porque viveram situações de verdadeiro horror e querem apoio emocional. Situações como relacionamentos abusivos, abuso sexual, transtornos alimentares, entre outros. E o que acabam encontrando, muitas vezes, é um ambiente de intolerância para aquelas que estão começando no feminismo, ou ambientes hostis em que não há vez para falarem sobre seus problemas.
É também importante frisar, que por conta de transtornos mentais ou outros tipos de transtornos, essas mulheres acabam vendo na internet, o seu único espaço de construção e militância, e esses fatores acabam por afastá-las e até mesmo agravar seus transtornos em decorrência da forma como nos tratamos dentro desses espaços de construção de conhecimento.
Muitas dessas doenças, vale frisar, são decorrentes desses traumas e abusos emocionais, e acabam se agravando pelos conflitos dentro de espaços que deveriam ser de acolhimento e segurança para todas nós.
Uma das maiores barreiras que encontro dentro desses espaços de conhecimento e debate das tantas teorias feministas, é a hostilidade entre mulheres e o capacitismo que acontece em relação à essas mulheres que sofrem desses transtornos, e a banalização de seu sofrimento. E isso é algo grave, e que interfere e muito na proposta de construção desses ambientes, e tem um impacto profundo na vida dessas mulheres, e isso precisa ser urgentemente debatido.
Para falarmos mais claramente sobre o que é o capacitismo e no quanto isso entrava nosso processo de construção e militância, vou colocar aqui, uma definição da palavra para que seu significado dentro desse assunto, saúde mental, fique mais claro.

“Defino o capacitismo como a concepção presente no social que tende a pensar as pessoas com deficiência como não iguais, menos humanas, menos aptas ou não capazes para gerir a próprias vidas, sem autonomia, dependentes, desamparadas, assexuadas, condenadas a uma vida eternamente economicamente dependentes, não aceitáveis em suas imagens sociais, menos humanas.

São algumas características: há sempre uma boa dose de paternalismo, que tolera que os elementos dominantes de uma sociedade expressem profundo e sincera simpatia pelos membros com deficiência, enquanto, ao mesmo tempo, sustente-os numa acondicionamento de subordinação social e econômica.”

Trecho retirado do blog https://chegadecapacitismo.wordpress.com/2012/11/23/entenda-o-que-e-capacitismo/

Ampliamos esse termo para as doenças e transtornos mentais, que podem ou não, dependendo de sua gravidade, serem considerados um tipo de deficiência.

A dose de paternalismo e o fato das pessoas dentro desses ambientes, muitas vezes hostis, e muitas vezes a manutenção dessa subordinação (e muitas vezes digo no sentido intelectual, não somente social e econômico) acaba por agravar os transtornos e dificultar o acesso dessas mulheres aos espaços de construção.
Além do capacitismo, muitas vezes camuflado de empatia, vejo uma boa dose de banalização da depressão, bipolaridade, ansiedade (que são problemas mais frequentes de se encontrar dentro desses espaços), diminuindo esses transtornos à um simples problema que pode ser resolvido com chás, meditação e outras formas de terapia alternativa, que em nada colaboram para a saúde mental dessas mulheres.
Acredito que um dos primeiros passos para garantir que esses espaços sejam seguros é respeitar de fato a autonomia das mulheres na construção de cada um deles, respeitando sempre que cada mulher vai descobrir pra si, a melhor teoria para debate, dentro de um espaço seguro onde as discussões não acabem de forma hostil.
Permitir que as mulheres ingressem nesses espaços sem que haja hostilidade, já é uma maneira de proteger sua saúde mental.
Outra coisa que acho importante, porque vejo em grupos de ajuda entre mulheres conselhos como tomar chás e esse tipo de coisa, aconselhar sempre a buscar um profissional da psicologia ou psiquiatria, porque ignorar que esses transtornos são graves e precisam de tratamento adequado, é colocar a saúde mental e segurança dessas mulheres em risco.
Não podemos ignorar também, que o fator exposição e escracho público e perseguição na internet acabam por agravar e até mesmo levar a consequências mais extremas, os transtornos mentais. Acreditar que esse tipo de situação que acontece na internet, acaba na internet, é ignorar que isso terá consequências bastante reais pra essas mulheres.
O capacitismo se desconstrói com informação, responsabilidade e acima de tudo, empatia. A palavra sororidade não deveria ser apenas um chavão feminista, ela deveria ser colocada em prática por todas nós.

Para conferir mais sobre o blog chega de capacitismo, clique aqui https://chegadecapacitismo.wordpress.com

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50 tons de repúdio à violência doméstica e ao capacitismo

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Como mulher e feminista, me senti na obrigação de escrever uma crítica pontual em relação ao 50 tons de cinza, filme baseado no livro de mesmo nome.

E lendo as resenhas críticas e outros pontos de vista em relação ao filme, senti raiva. Porque em todo e qualquer texto a respeito, estavam carregados de machismo, capacitismo e culpabilização.
Mas antes de entrar nessas questões, já deixo claro que essa postagem é uma nota de repudio direta à resenha crítica escrita por Pablo Villaça e à carta de uma psiquiatra dizendo as razões para que você, leitora, não fosse ao cinema assistir a esse filme.
Vou ser direta. 50 tons de cinza não é um filme romântico, não se trata de uma história de amor. 50 tons de cinza não é tampouco, um filme sobre BDSM. É um filme sobre abuso psicológico, abuso físico. O perfil do personagem principal demonstra claramente um desequilíbrio.
Ele trata sua parceira como trata suas coisas. Ele precisa ter o controle de sua vida, saber cada um de seus passos e ter a certeza de que ela pertence apenas à ele.
Não difere muito do que vemos nos casos de violência doméstica por aí. Homem controlador, abusador, que tem surtos de raiva e bate na parceira. Situações semelhantes e sintomáticas de todos os casos de abuso que conheço. O que difere é que o cinema deu uma visão romantizada do que é o abuso, de forma que se passa quase que imperceptível aos olhos daquelas que não conseguem perceber que já viveram relações abusivas muitas vezes semelhantes.
E elas não são culpadas, porque nossa sociedade a todo tempo normaliza e padroniza esses comportamentos como sendo parte natural do instinto do homem, o que não é verdade.
Chamá-lo de monstro tampouco torna compatível com nossa realidade. Pelo contrário, dá a ele uma característica quase que caricata, afastando completamente daquilo que vemos diariamente. E bem sabemos que nós conhecemos alguma mulher que passou ou passa por situação de abuso psicológico e físico, portanto é sim, uma realidade bastante conhecida.
Tanto no texto de Pablo Villaça quanto na carta da psiquiatra, que andam circulando pela internet, a questão da saúde mental foram apontadas como fator predominante para que a Anastacia se envolvesse com Grey. E aí entra o que eu apontei como capacitismo e culpabilização.
O que é tido como uma pessoa emocionalmente estável? Quem, hoje em dia, é emocionalmente estável? E vou além na questão: Quem deveria ser realmente criticado? Ela que se envolveu por nitidamente ser uma jovem que se deslumbrou com a vida que ele leva e que difere muito da sua realidade, ou ele que é claramente um abusador psicológico?
Conheço muitas mulheres que sofreram abuso psicológico, e eu mesma já fui vítima, por um ex namorado. Eu estava apaixonada e não conseguia perceber que o que eu estava vivendo era terror psicológico, era abusivo e que eu não precisava me submeter a isso. Eu só fui perceber o que havia passado quando tive contato com o feminismo e vi relatos de muitas outras mulheres que haviam passado pela mesma situação que eu.
O abuso psicológico mina sua autoestima e sua capacidade de discernir os fatos.O meu abusador destruía minha autoestima me humilhando, fazendo com que eu desacreditasse nas minhas capacidades. E é a arma de muitos dos abusadores. Muitos deles usam gaslighting (tentativa de te fazer desacreditar o que está vivendo ou dizendo, de maneira a ter controle sobre você, minando seu psicológico) para controlar suas vítimas e fazer com que elas continuem se submetendo a esse tipo de abuso. O abusador psicológico te afasta das pessoas, pra que você não consiga sair dessa situação.
Dizer que uma mulher vivendo essa situação é psicológicamente estável é ser idiota. Mas acusar uma mulher que acaba entrando nessa situação de que seu psicológico é desestruturado e por isso ela se submeteu a isso é uma grande mentira.
Nenhuma mulher quer viver situações de abuso e não se submete a esse tipo de coisa porque quer. Os abusadores possuem artimanhas de tal maneira que não se consegue desvencilhar dessa situação, até que a vítima consiga perceber ou com a ajuda de alguém, ou sozinha (isso quando a vítima não morre) e saia disso.
Para fazer uma crítica contundente não é preciso usar de argumentos machistas ou capacitistas. Basta uma análise até que superficial da nossa sociedade que dita o que é do comportamento masculino e o que é do comportamento feminino, e os estímulos que cada um recebe desde o nascimento.
A mulher é ensinada desde a infância a se submeter a certos tipos de comportamento dentro de suas relações. A aguentar humilhações, comportamentos agressivos porque são tidos como normais. E é exatamente pela normalização dessa violência contra a mulher, que tantas de nós acaba se submetendo a relações violentas e abusivas.
Anastacia não era desequilibrada.

50 tons de cinza não é  tampouco sobre libertação sexual feminina. E mesmo quando falamos sobre libertação sexual feminina sempre tem um conceito machista embutido nisso que só favorece aos homens (e sempre relacionando com fetichização de lésbicas e bissexuais, sempre).
50 tons de cinza está longe de ser sobre o BDSM (e aí, deixo a problematização sobre certas práticas e fetiches pra uma outra hora).
50 tons de cinza se trata de, mais uma vez, a violência doméstica ser naturalizada.
Quando um homem controla a sua vida, com quem você se relaciona, o que você faz. Quando um homem sabe exatamente cada passo que você dá, é possessividade, e é abuso psicológico. Porque ele transforma a relação em um cárcere, e a mulher em uma presa que deve ser mantida sob sua custódia.
Quando vemos filmes como esse, naturalizando esse tipo de comportamento, é como se toda uma sociedade estivesse aplaudindo isso. E na verdade está, né. Porque esse tipo de coisa é normalizado há tempos, apenas tomou a proporção midiática.
A questão é que se fala muito desse filme, relacionando isso à libertação sexual feminina quando NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA com a libertação da mulher em relação à sexualidade, e menos ainda com sustentar o fetiche masculino. A libertação feminina independe do prazer do homem, o que o filme mostra claramente que é uma das únicas preocupações dele, satisfazer seus desejos.
Nossa sexualidade é ignorada. Nos ensinam a não nos tocar, a não nos descobrir porque é feio, vulgar, errado. E ai nos dizem que isso é uma forma de libertação sexual, de descobrir nossos fetiches.
Na verdade isso induz muita mulher a se relacionar dessa maneira porque acredita que talvez assim seu parceiro lhe dê prazer, porque relações abusivas e controladoras são normalizadas.
Tomem cuidado com esse discurso ”libertador”, nossa prisão é bem maior do que se vê.
Não construam seus gostos e subjetividades em algo que a mídia mostra o tempo todo, em algo que se constrói a partir do outro e não de você.

Para ler o texto original de Pablo Villaça: http://naofo.de/32tm

Para ler o texto da psiquiatra: http://naofo.de/32t3

Para entender sobre a normalização dos relacionamentos abusivos, leia esse texto complementar: http://womansplaining.com.br/2013/12/03/relacoes-abusivas-como-fomos-ensinadas-a-aceitar/

Amélia Autumn

Agosto, o mês da visibilidade lésbica

Este mês é o mês da visibilidade lésbica. Por conta disso, iniciamos uma série de publicações que irão ajudar a esclarecer e combater a lesbofobia, que mata cada dia mais.

 

Estamos no mês da visibilidade lésbica. E este mês só é colocado desta forma, porque há a necessidade de dar foco àquilo que é colocado à margem; àquilo que a sociedade finge não existir. Para entender melhor sobre este fenômeno, temos que pensar numa sociedade pré-noção e militância LGBT, devemos pensar numa sociedade que ainda não possuía categorias específicas para lidar com as sexualidades fora da norma heterossexual. O mundo pré-noção LGBT era um mundo estruturado de forma bem semelhante ao nosso: os homens possuíam o poder e a educação; as mulheres eram subjugadas e colocadas enquanto ferramenta de prazer e desfrute masculino (seja sexual, seja num universo material – de favores domésticos, por exemplo). O saber estava concentrado em mãos masculinas e foram estas mãos que escreveram textos teóricos e que tentavam provar empiricamente as funções, ações e reações do universo feminino. Neste mundo de mulheres sem voz, os homens analisavam o corpo feminino em um modelo adaptativo do seu próprio, acreditando que, aquilo que chamamos de ovários eram testículos e que o clitóris não passava de um micropênis subdesenvolvido. Desta forma, foi constituída a noção de um corpo feminino monstruoso; como um homem com defeito, que guardava seus órgãos reprodutores de forma interna por não terem tido força para se tornarem externos durante a gestação. Neste sentido, como este corpo anômalo poderia ser responsável pelo prazer de outrem? As narrativas sexuais eram falocêntricas a ponto de não considerar o corpo feminino como fundamental num ato sexual entre homem e mulher. A mulher só aparecia como parte fundamental na reprodução, mas, ainda assim, como menos fundamental e importante que o homem. Se, já no século XIX se acreditava que o orgasmo masculino era o responsável pelo prazer feminino (o gozo do homem fazia o corpo feminino convulsionar e experimentar o êxtase sexual), o que se poderia dizer sobre a possibilidade de relações afetivo-sexuais entre mulheres nesta época, ou antes dela? Durante a Inquisição moderna, os chamados “desvios sexuais e morais” também foram julgados pelo Santo Ofício. Neste momento, não havia a classificação “homossexual”, que conhecemos atualmente. O termo empregado era o de “sodomita” ou “somítigo”. A sodomia não era uma característica pessoal relativa às preferências sexuais e afetivas dos indivíduos, mas, a prática de um ato sexual chamado de “antinatural” por não ter função reprodutiva – era um crime, um pecado e um vício. Assim, a sodomia poderia ser masculina (sexo entre dois homens), feminina (entre duas mulheres) ou mista (sexo entre homem e mulher com penetração anal). Mas, tanto não se entendia sobre as funcionalidades do corpo feminino, que logo a sodomia feminina parou de ser perseguida por alguns tribunais inquisitoriais. Em 1591, houve a primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil. Nele, foram registrados alguns relatos de relações somítigas entre mulheres. O inquisidor responsável pela visitação preferiu ignorar, em sua maioria, as denúncias feitas, só abrindo processo contra aquelas mulheres que tinham envolvimento com diversas outras mulheres e que estes casos eram de conhecimento público. Este foi o caso de Felipa de Sousa. Felipa de Sousa é uma mulher-marco ao se falar sobre envolvimentos afetivo-sexuais entre mulheres no Brasil. Em seu processo inquisitorial, consta que “…a dita ré Felipa de Sousa pecar o horrendo e nefando crime de sodomia, pecado contra a natura, com muitas mulheres, assim casadas, como solteiras, por muitas vezes, em diversos tempos, sendo ela, ré, ora agente íncuba, ora paciente súcuba, consumando algumas vezes o dito pecado nefando com o cumprimento natural de semelhantes atos como se fossem naturais, ajuntando ela, com as outras mulheres cúmplices, seus vasos dianteiros. E, tendo suas deleitações abomináveis ela, com outras mulheres. E, consta a ré ser acostumada a namorar mulheres, requestando-as com cartas de amores e com recados e presentes. E as provocar ao dito abominável pecado e dar-lhes abraços e beijos com intenção torpe e desonesta e abominável. E gabar-se de tão horrendos pecados que cometia, nomeando as mulheres com quem os cometia, os quais horrendos pecados de sodomia cometeu, ajuntando-se com as outras mulheres sem haver algum instrumento penetrante. O que tudo fez com pouco temor de Deus, esquecida da salvação de sua alma…”. Felipa de Sousa foi degredada e chicoteada em praça pública. Pena leve, se considerarmos que a sodomia era passível de pena pela fogueira. Os historiadores especialistas no tema alegam que era justamente a falta de conhecimento acerca do corpo feminino que representou esta pena tão branda – que acabou sendo regra –, afinal, se as mulheres não eram capazes de causar prazer uma para a outra, a pena de morte seria uma punição desproporcional. Além disso, uma pena como esta seria a confirmação do que para uma sociedade misógina é impossível de se afirmar: que mulheres são capazes de se satisfazerem sexualmente sem a presença masculina, ou, ainda, sem instrumentos fálicos. Estas noções permanecem vivas. A invisibilidade lésbica, como conhecemos atualmente, se dá por esta mesma certeza sedimentada culturalmente nas sociedades ocidentais: não há sexo nem real prazer sexual sem falo. Neste sentido, tratam de forçar o envolvimento afetivo-sexual de lésbicas com homens heterossexuais; se argumenta que uma mulher só pode se declarar enquanto lésbica se já teve envolvimento sexual com homens, mas, se ela argumenta já ter tido estas relações, a classificam enquanto bissexual e colocam que ela não experimentou “homem de verdade”. Devemos, inclusive, destacar que este fenômeno não ocorre com homens homossexuais, isto porque há falo nestas relações e a cultura misógina não consegue duvidar da legitimidade do sexo que envolve pênis. A invisibilidade lésbica é um dado que ocorre em sociedades machistas e de ódio às mulheres: esta sociedade que naturaliza a norma heterossexual não consegue perceber a sexualidade feminina como não subserviente do prazer masculino. Aqui, apenas as mulheres lésbicas transgressoras que se caracterizam fortemente dentro de uma padronagem masculina conseguem ser percebidas – mas, assim como são vistas, são depreciadas e humilhadas pela regra geral da cultura hétero. As lésbicas consideradas “femininas” são fetichizadas e colocadas como objeto de cobiça dos homens que, para além de desejarem performar a “cura lésbica” por meio de seu falo irresistível, sonham com o ato sexual que envolve duas mulheres cobiçando o seu falo. As lésbicas, também por esta característica fetichizante atribuída pelos próprios homens e sedimentada pela indústria pornográfica, correm o risco do chamado “estupro corretivo”, que consiste no estupro “justificado” com o discurso de “cura lésbica”. Mais uma vez, o falo aparecendo com propriedades mágicas e curativas. A invisibilidade vem atrelada com uma série de violências, físicas, psicológicas e sexuais. Ela aparece como expressão máxima do ódio e da falta de desejo de entendimento das características sexuais femininas e de seu livre arbítrio sexual. Negam o direito da mulher à sexualidade lésbica porque negam a existência da mulher como ser independente das propriedades e vantagens que administram aos homens. A lesbiandade não pode existir no modelo patriarcal porque ela nega o homem como centro do mundo e coloca a mulher neste local de privilégio em relações afetivas e sexuais. A luta pela visibilidade é a luta pelo fim de explorações, de violências e da noção de que mulheres foram feitas para servir aos homens como eles bem entenderem. A luta pela visibilidade é a luta pela emancipação. Ela é importante porque, enquanto visíveis, podemos denunciar aquilo que nos machuca e defender nossos direitos. Visíveis, nós existimos.

Texto por J Lo Borges10373656_523538921085651_425333773149064903_n

Padrões de beleza e autoestima

Padrões de beleza e autoestima

Vivemos em uma sociedade que nos define por nossa beleza. Ou melhor, por aquilo que eles consideram belo.
Diria que hoje, vivemos em um mundo de beleza pasteurizada. Os padrões estão aí, sendo vendidos pela mídia juntamente com os produtos certos para nos manter aceitáveis. A mídia massacra mulheres comuns, como eu e você, e também massacra artistas que vivem de sua aparência para vender seus trabalhos.
Coloque uma maquiagem, use salto alto, depile todo o seu corpo, emagreça. Essas são as ordens. É isso que vemos estampados nas capas de revistas, o milagre do photoshop que nos destrói um pouco a cada dia.
Um mundo que nos diz quando comer, o que comer, o que vestir, o que sentir com o nosso corpo quando olhamos no espelho, nos diminui, nos desumaniza, nos destrói.
A autoestima se baseia em padrões irreais, e aí vejo milhares de meninas desenvolvendo transtornos alimentares, disforia, entre outros problemas graves porque infelizmente, não se encaixam nesses padrões vendidos pelas revistas.
Cansada de tudo isso, Colbie Caillat escreveu uma música, um recado para todas as mulheres. Ver isso é tão raro, que é preciso falar sobre.
Numa cultura do embranquecimento, numa cultura do emagrecimento compulsório, onde nós não conseguimos gostar daquilo que vemos no espelho, ouvir uma música como essa, é um grito de vitória.
Uma artista que se preocupou em destruir essa cultura compulsória, que mostrou sua verdadeira face, e que estimula mulheres a fazerem o mesmo, e acima de tudo se amarem, é algo emocionante.
Vendo o clipe, me emocionei, chorei. Me senti representada, me senti bem de ver que ela, assim como eu, é uma mulher comum.
Perceber que as marcas no meu corpo contam a minha história, e olhar pra elas com orgulho foi um processo muito difícil. Construir uma autoestima real, sem me basear em padrões de beleza eurocentricos e irreais, foi uma luta diária, que permanece constante. Ver alguém se preocupando, alguém da mídia, é mais do que emocionante, vai se tornar um hino de libertação para eu e muitas outras mulheres, como você.
Assista ao clipe de Colbie Caillat, e se emocione tanto quanto eu.

Colbie-Caillat

A letra traduzida

“Coloque sua maquiagem
Faça as unhas, deixei seu cabelo crescer
Corra mais um pouco
Mantenha-se esbelta para que gostem de você
Eles gostam de você?

Fique bem sexy
Não seja tímida, menina, mostre mais
É isso que você quer
Se enturmar, para que gostem de você
Você gosta de você?

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que dar tudo
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar
Você não tem que tentar

Faça suas compras
No shopping, misture seus cartões de crédito
Você não tem que escolher
Compre tudo para que gostem de você
Será que eles gostam de você?

Espere um segundo
Por que você deveria se importar com o que pensam?
Quando você está sozinha
Sem ninguém, você gosta de você?
Você gosta de você?

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que dar tudo
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que se desdobrar até quebrar
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar
Você não tem que tentar

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar
Você não tem que tentar

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que dar tudo
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar

Tire sua maquiagem
Deixe seu cabelo solto, respire profundamente
Olhe-se no espelho para si mesma
Você não gosta de você?
Porque eu gosto de você”

Ame-se. Não se encaixe em padrões, seja você mesma.

Relato: Racismo

O texto foi escrito por Gabriella Jude e enviado para nós como um relato sobre o racismo.

 

Hoje na faculdade, a professora sugeriu que fizéssemos uma colagem com aquilo que nos contemplasse, que gostássemos muito, que nos representasse (eu curso Artes Visuais). Adoro colagens, e embora houvesse anos que eu não fizesse nenhuma, corri para recortar revistas. Depois de 10 revistas folheadas e vasculhadas, encontrei o total de UMA ÚNICA mulher negra. A Halle Berry. Uma atriz que é fantástica, mas semidesconhecida pelos jovens atuais, até por ultimamente estar mais velha. Me irritei e saí da sala.
Bom, eu sou uma mulher negra, lésbica e feminista. Eu sofri (e sofro de recaídas) por muitos anos com distúrbios alimentares sérios. Eu era bulímica. Tenho transtorno de autoimagem. Com 17 anos eu conheci o bodypositive* (movimento que busca a auto aceitação, auto amor, enfim, que enxerguemos nossos corpos fora do padrão de maneira positiva). Ele me ajudou bastante. Mas não o suficiente.
Vejo amigas minhas brancas que realmente conseguem se amar e se empoderar nesse meio. Não acho isso ruim de forma alguma. Padrões de beleza em geral são opressores, chegam a ser extremamente cruéis. Padrões de beleza não são sobre mulheres bonitas, de forma alguma, mas sobre mulheres obedientes. Resistir e não render-se a esse padrão, não se adaptar, enxergar o belo além dos que nos foi imposto (isso é feio, isso é ruim; isso é bonito e bom) é uma conquista gigantesca para as mulheres.
Mas para quais mulheres?
O que eu estou tentando dizer é que desde pequena eu venho sido humilhada pelo meu cabelo, pela cor da minha pele e odiado a minha boca e meu nariz. Desde pequena, quando escuto minhas amigas (brancas) reclamando de seus “defeitos”, eles quase sempre são: nariz largo, cabelo armado, frizzado. Desde adolescente eu vejo minhas amigas brancas, quando insatisfeitas com algo no seu visual, pintarem o cabelo e eu ouvindo que nenhuma daquelas cores combinariam com meu tom de pele. Batom? Nem pensar. Eu estava resignada a me sentir feia. 
E então eu acho ótimo que meninas aceitem seus pesos e se amem. Eu também aprendi a fazer isso. 
Mas nem sempre. 
Quando eu acordo me sentindo “gorda” (e eu não sou uma pessoa gorda. Meu distúrbio alimentar + remédios + depressão me fizeram emagrecer quase 20kg), porque estou inchada ou barriguda ou algo assim, eu tento verbalizar isso. E então vem a patrulha do bodypositive. Eu nem preciso dizer qual a cor dessa patrulha.
“Você não é só um número, gorda não é ruim, você não é o seu peso”.
Mas e gorda e preta? Quantas piadas sobre mulheres negras e gordas eu não ouvi em toda a vida? Comentários cruéis e pejorativos vindo de meus próprios amigos? Eu sinto medo. Eu sinto dor. 
Pode ser gorda, mas não pode ser preta.
Pode ser preta, mas não pode ser gorda.
Com relação à depilação, a mesma história. Vejo meninas empoderadas e orgulhosas de seus pelos corporais e isso me deixa sempre feliz. E então me perguntam: por que você não faz o mesmo? Se é assim contra a ditadura da beleza, por que não faz o que prega? Cobranças e cobranças. Porque, veja bem, porque eu não sou um mártir. Porque eu não SUPORTARIA os olhares de repulsa. Os olhares que mulheres brancas com seus pelos finos nas pernas recebem, eu recebo sem precisar fazer absolutamente nada.
Eu sinto uma dificuldade imensa em entrar em tumblrs e sites sobre orgulho gordo ou sobre a naturalização de pelos corporais, onde colocam fotos de meninas felizes com seus corpos e elas são quase sempre brancas.
Não existem mulheres negras em hollywood. As mulheres negras da indústria pop são uma minoria ridícula. Como nos sentirmos pessoas bonitas se em livros, filmes, revistas, bandas famosas e seriados nunca existem pessoas como nós? Se a menina excluída e esquisita daquela série é branquinha e sardenta, de nariz fino, cabelo liso? Onde estamos nós? Onde estão os seres com a nossa imagem e semelhança? Estão nos clipes de funk, nas favelas, estão sendo ridicularizados e expulsos de shoppings.
Não me forcem a me sentir bonita.
Não me faça sentir culpada por não me sentir bonita quando a lista das suas ex namoradas são de meninas branquinhas de cabelos longos e lisos, sardentas, alternative nerdy girl. Não me importo se você me acha linda, não me importo se você me acha “exótica”. 
Nossa revolução é diferente.
E aqui fica registrado o meu choro e o meu grito.

 

Valesca, funk e feminismo

Há uma grande polêmica circulando a internet, quando dizemos algo sobre Valesca, relacionado ao feminismo.
E aí, levanto algumas questões bem importantes, que acredito serem fundamentais de fazermos antes mesmo de entrarmos no assunto ‘Valesca é feminista’?
Antes de mais nada, deixe seu preconceito musical de lado.
Quando falamos sobre cultura, percebo uma visão elitista acerca dessa definição. Mas existem dois tipos de cultura: A popular, e a Erudita.
Para Luiz Gonzaga de Mello, “a cultura, em sentido largo é todo o conjunto de obras humanas”, portanto, a cultura não é apenas aquilo produzido pela elite, e sim, aquilo tudo produzido por um povo, por uma tribo, por um grupo.
O funk faz parte da cultura popular do Brasil, e tem alcançado grandes públicos. Mas o nome que mais tem chamado a atenção, é o de Valesca.
Mulher, Valesca canta letras que chocam, que escancaram uma coisa que há muito, é encarado pela sociedade machista e patriarcal, como algo ofensivo, sujo, errado: O desejo feminino.
Será que vem daí então, o incomodo com as letras do funk?
Sabemos que a objetificação do corpo da mulher e de sua sexualidade existem desde os primórdios. Prova disso é o sucesso que faziam as figuras das pinups nos anos 50, o corpo feminino nas pinturas renascentistas, etc. Historicamente a mulher é retratada de diversas formas, mas desde os primórdios, o corpo da mulher é tido como pecaminoso, impuro.
Venho então levantar três questões que considero importantes para nossa reflexão: Qual é a problemática do funk? Qual o papel da Valesca dentro do feminismo? E a objetificação da mulher?
A primeira questão, que se refere a problemática do funk, a meu ver é bastante simples. O elitismo, o preconceito e o racismo. Funk é sinônimo de música de “preto favelado”, com letras grosseiras e apologia ao sexo. Mas aí me pergunto, e o rock? E a MPB? E o sertanejo? Estilos tido como da elite também possuem letras vazias, com apologia ao sexo, conteúdo grosseiro. Também tratam a mulher como objeto simples direcionado ao prazer do homem. Também ensinam como se ‘conquistar’ (porque não consigo imaginar uma outra palavra para encaixar aqui) uma mulher e a levá-la pra cama. Mas o que incomoda é o escancarado, o literal, aquilo que não foi produzido pela elite e para a elite.
A segunda questão é o foco do texto. Valesca é uma mulher funkeira que ganhou grande destaque com sua música. Uma mulher que escancara seus desejos e empodera a mulher. Que traz à tona a questão da sexualidade feminina, do desejo, da autonomia do próprio corpo. Em uma de suas letras, Valesca diz “Eu vou te dar um papo/Vê se para de gracinha/Eu dou pra quem quiser/Que a porra da boceta é minha”.
Sei que o funk possui algumas letras ofensivas e grande teor objetificador, mas ver uma mulher, falar sobre seu próprio corpo de maneira livre é sim, empoderador para todas as mulheres.
Além do mais, Valesca dá voz à mulheres da periferia, mulheres que não são ouvidas, que vivem uma realidade diferente da minha, da sua, de muita gente.
Ela tem um papel importante, que é o de empoderar essas mulheres, de se comunicar com elas e mostrar que o funk é pra elas também, que o funk é pelas mulheres.
E quando falo da objetificação que acontece dentro das artes no geral, é preciso também olhar para aquilo que é produzido pela elite. A objetificação acontece tanto quanto.
É preciso tomar cuidado e não confundir gosto musical pessoal com o preconceito que está enraizado.
A Valesca é sim, uma pensadora contemporânea. E no meio de tantos “Gênios”, como Olavo de Carvalho, Lobão, ela é a mais sóbria.
Mas aí venho levantar outra questão que considero de suma importância, e deixo para reflexão para um outro texto. Será que “a porra da buceta é minha”? Será que, na sociedade que vivemos, eu tenho direito sobre meu corpo?Imagem

Texto por Amelia Autumn