Categoria: Autoestima

YouTuber canadense defende discurso de ódio contra obesos

YouTuber canadense defende discurso de ódio contra obesos

Nicole Arbour, YouTuber de 30 anos, publicou em sua conta um vídeo de seis minutos onde ela denigre e ofende obesos, entitulado “Dear Fat People”, do inglês “Queridos Gordos.” Neste vídeo, a mulher diz que “fatshaming” (ou gordofobia) deve ser estimulado, afim de que as pessoas obesas sintam vergonha e desconforto o suficiente para começar a emagrecer e evitar o que ela chama de “maus habitos”.

Gordofobia não existe. É algo que os gordos inventaram. É tipo gritar racismo pra uma questão que não involve racismo. Aí a pessoa fala, “é, mas eu não coube dentro de uma loja, isso é discriminação.” Hm, não. Isso só significa que você é muito gordo, e que deveria parar de comer.”

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Padrões de beleza e autoestima

Padrões de beleza e autoestima

Vivemos em uma sociedade que nos define por nossa beleza. Ou melhor, por aquilo que eles consideram belo.
Diria que hoje, vivemos em um mundo de beleza pasteurizada. Os padrões estão aí, sendo vendidos pela mídia juntamente com os produtos certos para nos manter aceitáveis. A mídia massacra mulheres comuns, como eu e você, e também massacra artistas que vivem de sua aparência para vender seus trabalhos.
Coloque uma maquiagem, use salto alto, depile todo o seu corpo, emagreça. Essas são as ordens. É isso que vemos estampados nas capas de revistas, o milagre do photoshop que nos destrói um pouco a cada dia.
Um mundo que nos diz quando comer, o que comer, o que vestir, o que sentir com o nosso corpo quando olhamos no espelho, nos diminui, nos desumaniza, nos destrói.
A autoestima se baseia em padrões irreais, e aí vejo milhares de meninas desenvolvendo transtornos alimentares, disforia, entre outros problemas graves porque infelizmente, não se encaixam nesses padrões vendidos pelas revistas.
Cansada de tudo isso, Colbie Caillat escreveu uma música, um recado para todas as mulheres. Ver isso é tão raro, que é preciso falar sobre.
Numa cultura do embranquecimento, numa cultura do emagrecimento compulsório, onde nós não conseguimos gostar daquilo que vemos no espelho, ouvir uma música como essa, é um grito de vitória.
Uma artista que se preocupou em destruir essa cultura compulsória, que mostrou sua verdadeira face, e que estimula mulheres a fazerem o mesmo, e acima de tudo se amarem, é algo emocionante.
Vendo o clipe, me emocionei, chorei. Me senti representada, me senti bem de ver que ela, assim como eu, é uma mulher comum.
Perceber que as marcas no meu corpo contam a minha história, e olhar pra elas com orgulho foi um processo muito difícil. Construir uma autoestima real, sem me basear em padrões de beleza eurocentricos e irreais, foi uma luta diária, que permanece constante. Ver alguém se preocupando, alguém da mídia, é mais do que emocionante, vai se tornar um hino de libertação para eu e muitas outras mulheres, como você.
Assista ao clipe de Colbie Caillat, e se emocione tanto quanto eu.

Colbie-Caillat

A letra traduzida

“Coloque sua maquiagem
Faça as unhas, deixei seu cabelo crescer
Corra mais um pouco
Mantenha-se esbelta para que gostem de você
Eles gostam de você?

Fique bem sexy
Não seja tímida, menina, mostre mais
É isso que você quer
Se enturmar, para que gostem de você
Você gosta de você?

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que dar tudo
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar
Você não tem que tentar

Faça suas compras
No shopping, misture seus cartões de crédito
Você não tem que escolher
Compre tudo para que gostem de você
Será que eles gostam de você?

Espere um segundo
Por que você deveria se importar com o que pensam?
Quando você está sozinha
Sem ninguém, você gosta de você?
Você gosta de você?

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que dar tudo
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que se desdobrar até quebrar
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar
Você não tem que tentar

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar
Você não tem que tentar

Você não precisa se esforçar tanto
Você não tem que dar tudo
Você apenas tem que se levantar, levantar, levantar
Você não tem que mudar uma única coisa

Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar, tentar, tentar, tentar
Você não tem que tentar

Tire sua maquiagem
Deixe seu cabelo solto, respire profundamente
Olhe-se no espelho para si mesma
Você não gosta de você?
Porque eu gosto de você”

Ame-se. Não se encaixe em padrões, seja você mesma.

Gordofobia: Não é uma questão de saúde

Big Fat Revolution

Pra começar a falar de gordofobia, é necessário alguns esclarecimentos a respeito do conceito da palavra “gordo”. Gordo, segundo algumas fontes, vem da palavra latina “gurdu”, que quer dizer lento, estúpido, pouco inteligente, “grosseiro”. Atualmente, a palavra serve para definir pessoas que tem muita gordura (segundo a definição do dicionário Michaelis). O principal problema da gordofobia começa justamente aí; o que é “ter muita gordura”? Muita gordura com relação a quê? A quem?
Acredito que o corpo gordo é uma condição social no caminho de se tornar um discurso ideológico. Descontruir a gordofobia – que é o objetivo inicial desse texto – significa tirar o corpo gordo da sua condição socialmente imposta de “mazela” e transformá-lo em identidade.
A gordofobia é, como todas as fobias, uma coleção de pensamentos pré-concebidos, geralmente prejudiciais, aos quais são submetidas as pessoas pertencentes a determinado grupo que partilham algumas características em comum. Como todo preconceito, ela se apóia em algumas falácias argumentativas pra existir. O que quero tentar fazer aqui é apontar cada uma dessas falácias e tentar desmascarar o que há por tras delas.

Numeradas a seguir, elas são:
1. A gordofobia médica: “Mas o problema não é estética, o problema é a saúde, todas as pessoas devem se sentir bem desde que estejam saudáveis! Obesidade não é saudável e causa muitos problemas de saúde, assim como anorexia. Ninguém deveria gostar de ser gordo! Gordura é uma questão de saúde pública”.

Pessoas gordas são geralmente consideradas culpadas da sua situação, julgadas como criminosos sem remorso algum. Essa frase vem cheia de outras concepções infundadas como: “uma pessoa só é gorda porque come demais e não se exercita”, ou “gordura é uma sentença de morte”. As falhas nessa argumentação são infinitas. Primeiro porque o fato de uma pessoa ser gorda não torna a sua saúde questão de domínio público. Além disso, os fatores que determinam o biotipo de alguém vêm de muito antes do seu nascimento, envolvem metabolismo, predisposição genética, etnia e muitas outras questões. Sobre gordura ser associada a morte, é claramente uma hipérbole. Corpos diferentes reagem de maneiras diferentes a estímulos externos como tempo e ambiente. Ser gordx não quer dizer que você vai morrer mais rápido que uma pessoa magra. Quer dizer apenas que o seu corpo é diferente e que os padrões que se aplicam a um outro tipo físico não são os mesmos que se aplicam a você.
Essa é atualmente a falácia mais difundida e tem muita relação com a noção ingênua de que discursos médicos/científicos são isentos de ideologia. Para entendê-la mais claramente, voltemos um pouco uns 200 anos no tempo, na época em que o discurso médico defendia a superioridade genética das etnias brancas sobre as não brancas. Ou 150 anos atrás, quando a mulher que tinha desejos sexuais e que era descontente com seu cárcere doméstico era considerada portadora de disturbios mentais. Ou 30 anos atrás, quando a AIDS era considerada uma doença exclusiva da homossexualidade.
Enfim, os exemplos são eternos. O discurso médico NUNCA é neutro, e na maioria dos casos históricos serve justamente para a manutenção do status quo. Com isso não quero dizer que se deva rejeitar todas as recomendações médicas, muito pelo contrário. Simplesmente não se deve cair na inocência de que eles são guiados apenas pelo bem comum.
(duas observações: embora saúde seja algo extremamente desejável, ninguém deve ser condenado, segregado e julgado caso tenha algum problema. Saúde mental também é saúde. E ser gorda também não impede que você se preocupe com o seu bem estar, se assim desejar. Há inúmeros institutos apoiando a saúde em qualquer tipo físico. Se você sente que tem algum problema, procure um médico de mente aberta e sem preconceitos. Grupos de body activism também podem ajudar bastante nessa situação).

2. A gordofobia do desejo: “Pessoas gordas não tem auto-estima, não são desejadas por ninguém e não tem vida sexual ativa”

Antes de tudo quero deixar uma coisa bem clara: O SEU VALOR NÃO É DETERMINADO SEGUNDO OS DESEJOS E VALORES ALHEIOS. Eu não posso frisar suficientemente a importância dessa frase.
Auto-estima é, de fato, um trabalho diário inesgotável. Ocasionalmente pode ser um processo complicado, mas isso porque pessoas gordas enfrentam tanto preconceito, tanto julgamento e tantas ofensas que as vezes algumas podem sentir extrema dificuldade em desenvolvê-la. E mesmo grupos que tentam lutar pela autonomia do corpo as vezes mais atrapalham que ajudam. Um exemplo disso é o famoso “aceitar o próprio corpo”. Implicitamente, essa frase está dizendo que você deve “se conformar” com o corpo que tem já que não pode ter outro. Não não não não. Errado. A verdadeira libertação do corpo vem do amor incondicional a si mesma, não da mera aceitação dele.
Sobre o corpo gordo e desejo sexual: gente, esqueçam todas – eu disse TODAS – as convenções e clichês que vocês ouviram a respeito. A experiência sexual em um corpo gordo é tão única e mágica quanto em qualquer outro corpo. Assim como as pessoas magras, gordxs não manifestam desejo “apesar do seu corpo”. Elas o manifestam através desse corpo, através de todos os poros, todas as dobras, todas as estrias tudo o que existe de belo e magnífico nele. Ser gordx não impede a sua vida sexual, não tira o seu desejo e, principalmente, não te obriga a aceitar qualquer merda vinda de imbecis.

3: A gordofobia da culpa: “Pessoas gordas não tem disposição pra nada e não tem força de vontade”.

Isso é tão absurdo que nem vale a pena refutar, mas vamos lá. Pessoas gordas não sedentárias são tão saudáveis quando pessoas magras não sedentárias. A respeito de gordura e dispodição, veja o primeiro tópico. Além disso, há inúmeros estudos, matérias e reportagens esclarecendo a questão, uma rápida pesquisa no Google por palavras chaves como “healthy and overweight” já prova o meu ponto. Sobre a força de vontade: bom, você pode dizer que nós, pessoas gordxs, temos muita força de vontade só pelo fato de que ainda não arrancamos a cabeça de quem fala tamanha bobagem. Além disso, a maioria de nós passou a vida inteira indo de médico a médico, experimentando todos os tipos possíveis de remédios, dietas e reeducações, aprendemos a passar fome, algumxs de nós até desenvolveram bulimia, exercitamos o nosso corpo até os limites do possível e sobrevivemos. O que nós mais temos é força de vontade.

4: A gordofobia social: “Nada fica bom em uma pessoa gorda, não existem roupas bonitas e elas não podem usar salto”.

Sim, infelizmente é muito difícil achar roupas em tamanhos maiores. E isso é culpa da indústria da moda, que impõe padrões como se fosse a dona do mundo. Felizmente isso está mudando. As lojas têm percebido que quase a totalidade das mulheres são classificadas como “gordas”, e o chamado mercado “plus size” (termo que eu não gosto muito), ou seja, tamanhos a partir do 46, está bem mais presente em lojas populares e de departamento. No Brasil essa tendência ainda está começando, mas no exterior ela já existe faz alguns anos e isso quase não é mais um problema. Sobre não poder usar salto, honestamente, isso é tão idiota que eu nem sei o que falar a respeito. O sapato de salto merecia um texto só pra ele, mas por hora basta dizer que, usado em excesso, não faz bem pra musculatura de ninguém. Isso, obviamente, não quer dizer que pessoas gordas não possam usá-los. Aliás, não quer dizer que pessoas de quaisquer biotipos não possam ou não devam usá-los.

5: A gordofobia do outro: “Mas eles não estão falando de mim, estão falando daquelas beeeeeeeem gordas”

Não, eles estão falando de você sim. Talvez a falta de uma mobilização no ativismo gordo seja o principal problema que enfrentamos, justamente por não saber reconhecer que as ofensas que são destinadas à nossas irmãs também nos atingem. Quando alguém faz um comentário gordofóbico, não está simplesmente humilhando uma pessoa, está tentando destruir todo um discurso, todo um grupo, um biotipo. Ofensas de cunho ideológico nunca são restritas a poucas pessoas.

O corpo gordo ainda enfrenta inúmeras outras dificuldades pessoais e sociais, principalmente com a família e com médicos. A necessidade da organização de um movimento de resistência é urgente e imediata. O seu corpo faz parte de quem você é, faz parte da sua identidade, é a maneira deliciosa e única segundo a qual você se apresenta diante do mundo. Abdicar dele é o verdadeiro pecado.

Obs.
a: A lista foi levantada por mim com base em comentários reais retirados da internet, com leve modificação para evitar a identificação.
b: Gordofobia pode ser ocasionalmente chamada de “lipofobia” também.
c: Referência ao texto “It’s a Big Fat Revolution”, de Nomy Lamm, o qual recomendo fortemente a leitura para quem se interessar por body activism.

Texto por Alexandrina Vitória Regina

Imagem

 

Imagem retirada do projeto da fotógrafa Isa Hansen. Projeto De dentro pra fora.