Categoria: Capacitismo

Capacitismo, saúde mental e militância virtual.

Vamos falar sobre saúde mental e capacitismo.
Pelo titulo sei que essa postagem não parece estar relacionada ao feminismo, mas ela está diretamente ligada a nossa vivência enquanto militantes feministas.
Vejo dentro dos ambientes virtuais de militância e acolhimento, diversas mulheres que sofrem de graves transtornos mentais como depressão, bipolaridade, borderline, entre tantos outros, que acabam se agravando e por conta disso, se afastando dos meios de construção e militâncias virtuais.
Muitas dessas mulheres que procuram esses grupos, o fazem porque viveram situações de verdadeiro horror e querem apoio emocional. Situações como relacionamentos abusivos, abuso sexual, transtornos alimentares, entre outros. E o que acabam encontrando, muitas vezes, é um ambiente de intolerância para aquelas que estão começando no feminismo, ou ambientes hostis em que não há vez para falarem sobre seus problemas.
É também importante frisar, que por conta de transtornos mentais ou outros tipos de transtornos, essas mulheres acabam vendo na internet, o seu único espaço de construção e militância, e esses fatores acabam por afastá-las e até mesmo agravar seus transtornos em decorrência da forma como nos tratamos dentro desses espaços de construção de conhecimento.
Muitas dessas doenças, vale frisar, são decorrentes desses traumas e abusos emocionais, e acabam se agravando pelos conflitos dentro de espaços que deveriam ser de acolhimento e segurança para todas nós.
Uma das maiores barreiras que encontro dentro desses espaços de conhecimento e debate das tantas teorias feministas, é a hostilidade entre mulheres e o capacitismo que acontece em relação à essas mulheres que sofrem desses transtornos, e a banalização de seu sofrimento. E isso é algo grave, e que interfere e muito na proposta de construção desses ambientes, e tem um impacto profundo na vida dessas mulheres, e isso precisa ser urgentemente debatido.
Para falarmos mais claramente sobre o que é o capacitismo e no quanto isso entrava nosso processo de construção e militância, vou colocar aqui, uma definição da palavra para que seu significado dentro desse assunto, saúde mental, fique mais claro.

“Defino o capacitismo como a concepção presente no social que tende a pensar as pessoas com deficiência como não iguais, menos humanas, menos aptas ou não capazes para gerir a próprias vidas, sem autonomia, dependentes, desamparadas, assexuadas, condenadas a uma vida eternamente economicamente dependentes, não aceitáveis em suas imagens sociais, menos humanas.

São algumas características: há sempre uma boa dose de paternalismo, que tolera que os elementos dominantes de uma sociedade expressem profundo e sincera simpatia pelos membros com deficiência, enquanto, ao mesmo tempo, sustente-os numa acondicionamento de subordinação social e econômica.”

Trecho retirado do blog https://chegadecapacitismo.wordpress.com/2012/11/23/entenda-o-que-e-capacitismo/

Ampliamos esse termo para as doenças e transtornos mentais, que podem ou não, dependendo de sua gravidade, serem considerados um tipo de deficiência.

A dose de paternalismo e o fato das pessoas dentro desses ambientes, muitas vezes hostis, e muitas vezes a manutenção dessa subordinação (e muitas vezes digo no sentido intelectual, não somente social e econômico) acaba por agravar os transtornos e dificultar o acesso dessas mulheres aos espaços de construção.
Além do capacitismo, muitas vezes camuflado de empatia, vejo uma boa dose de banalização da depressão, bipolaridade, ansiedade (que são problemas mais frequentes de se encontrar dentro desses espaços), diminuindo esses transtornos à um simples problema que pode ser resolvido com chás, meditação e outras formas de terapia alternativa, que em nada colaboram para a saúde mental dessas mulheres.
Acredito que um dos primeiros passos para garantir que esses espaços sejam seguros é respeitar de fato a autonomia das mulheres na construção de cada um deles, respeitando sempre que cada mulher vai descobrir pra si, a melhor teoria para debate, dentro de um espaço seguro onde as discussões não acabem de forma hostil.
Permitir que as mulheres ingressem nesses espaços sem que haja hostilidade, já é uma maneira de proteger sua saúde mental.
Outra coisa que acho importante, porque vejo em grupos de ajuda entre mulheres conselhos como tomar chás e esse tipo de coisa, aconselhar sempre a buscar um profissional da psicologia ou psiquiatria, porque ignorar que esses transtornos são graves e precisam de tratamento adequado, é colocar a saúde mental e segurança dessas mulheres em risco.
Não podemos ignorar também, que o fator exposição e escracho público e perseguição na internet acabam por agravar e até mesmo levar a consequências mais extremas, os transtornos mentais. Acreditar que esse tipo de situação que acontece na internet, acaba na internet, é ignorar que isso terá consequências bastante reais pra essas mulheres.
O capacitismo se desconstrói com informação, responsabilidade e acima de tudo, empatia. A palavra sororidade não deveria ser apenas um chavão feminista, ela deveria ser colocada em prática por todas nós.

Para conferir mais sobre o blog chega de capacitismo, clique aqui https://chegadecapacitismo.wordpress.com

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50 tons de repúdio à violência doméstica e ao capacitismo

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Como mulher e feminista, me senti na obrigação de escrever uma crítica pontual em relação ao 50 tons de cinza, filme baseado no livro de mesmo nome.

E lendo as resenhas críticas e outros pontos de vista em relação ao filme, senti raiva. Porque em todo e qualquer texto a respeito, estavam carregados de machismo, capacitismo e culpabilização.
Mas antes de entrar nessas questões, já deixo claro que essa postagem é uma nota de repudio direta à resenha crítica escrita por Pablo Villaça e à carta de uma psiquiatra dizendo as razões para que você, leitora, não fosse ao cinema assistir a esse filme.
Vou ser direta. 50 tons de cinza não é um filme romântico, não se trata de uma história de amor. 50 tons de cinza não é tampouco, um filme sobre BDSM. É um filme sobre abuso psicológico, abuso físico. O perfil do personagem principal demonstra claramente um desequilíbrio.
Ele trata sua parceira como trata suas coisas. Ele precisa ter o controle de sua vida, saber cada um de seus passos e ter a certeza de que ela pertence apenas à ele.
Não difere muito do que vemos nos casos de violência doméstica por aí. Homem controlador, abusador, que tem surtos de raiva e bate na parceira. Situações semelhantes e sintomáticas de todos os casos de abuso que conheço. O que difere é que o cinema deu uma visão romantizada do que é o abuso, de forma que se passa quase que imperceptível aos olhos daquelas que não conseguem perceber que já viveram relações abusivas muitas vezes semelhantes.
E elas não são culpadas, porque nossa sociedade a todo tempo normaliza e padroniza esses comportamentos como sendo parte natural do instinto do homem, o que não é verdade.
Chamá-lo de monstro tampouco torna compatível com nossa realidade. Pelo contrário, dá a ele uma característica quase que caricata, afastando completamente daquilo que vemos diariamente. E bem sabemos que nós conhecemos alguma mulher que passou ou passa por situação de abuso psicológico e físico, portanto é sim, uma realidade bastante conhecida.
Tanto no texto de Pablo Villaça quanto na carta da psiquiatra, que andam circulando pela internet, a questão da saúde mental foram apontadas como fator predominante para que a Anastacia se envolvesse com Grey. E aí entra o que eu apontei como capacitismo e culpabilização.
O que é tido como uma pessoa emocionalmente estável? Quem, hoje em dia, é emocionalmente estável? E vou além na questão: Quem deveria ser realmente criticado? Ela que se envolveu por nitidamente ser uma jovem que se deslumbrou com a vida que ele leva e que difere muito da sua realidade, ou ele que é claramente um abusador psicológico?
Conheço muitas mulheres que sofreram abuso psicológico, e eu mesma já fui vítima, por um ex namorado. Eu estava apaixonada e não conseguia perceber que o que eu estava vivendo era terror psicológico, era abusivo e que eu não precisava me submeter a isso. Eu só fui perceber o que havia passado quando tive contato com o feminismo e vi relatos de muitas outras mulheres que haviam passado pela mesma situação que eu.
O abuso psicológico mina sua autoestima e sua capacidade de discernir os fatos.O meu abusador destruía minha autoestima me humilhando, fazendo com que eu desacreditasse nas minhas capacidades. E é a arma de muitos dos abusadores. Muitos deles usam gaslighting (tentativa de te fazer desacreditar o que está vivendo ou dizendo, de maneira a ter controle sobre você, minando seu psicológico) para controlar suas vítimas e fazer com que elas continuem se submetendo a esse tipo de abuso. O abusador psicológico te afasta das pessoas, pra que você não consiga sair dessa situação.
Dizer que uma mulher vivendo essa situação é psicológicamente estável é ser idiota. Mas acusar uma mulher que acaba entrando nessa situação de que seu psicológico é desestruturado e por isso ela se submeteu a isso é uma grande mentira.
Nenhuma mulher quer viver situações de abuso e não se submete a esse tipo de coisa porque quer. Os abusadores possuem artimanhas de tal maneira que não se consegue desvencilhar dessa situação, até que a vítima consiga perceber ou com a ajuda de alguém, ou sozinha (isso quando a vítima não morre) e saia disso.
Para fazer uma crítica contundente não é preciso usar de argumentos machistas ou capacitistas. Basta uma análise até que superficial da nossa sociedade que dita o que é do comportamento masculino e o que é do comportamento feminino, e os estímulos que cada um recebe desde o nascimento.
A mulher é ensinada desde a infância a se submeter a certos tipos de comportamento dentro de suas relações. A aguentar humilhações, comportamentos agressivos porque são tidos como normais. E é exatamente pela normalização dessa violência contra a mulher, que tantas de nós acaba se submetendo a relações violentas e abusivas.
Anastacia não era desequilibrada.

50 tons de cinza não é  tampouco sobre libertação sexual feminina. E mesmo quando falamos sobre libertação sexual feminina sempre tem um conceito machista embutido nisso que só favorece aos homens (e sempre relacionando com fetichização de lésbicas e bissexuais, sempre).
50 tons de cinza está longe de ser sobre o BDSM (e aí, deixo a problematização sobre certas práticas e fetiches pra uma outra hora).
50 tons de cinza se trata de, mais uma vez, a violência doméstica ser naturalizada.
Quando um homem controla a sua vida, com quem você se relaciona, o que você faz. Quando um homem sabe exatamente cada passo que você dá, é possessividade, e é abuso psicológico. Porque ele transforma a relação em um cárcere, e a mulher em uma presa que deve ser mantida sob sua custódia.
Quando vemos filmes como esse, naturalizando esse tipo de comportamento, é como se toda uma sociedade estivesse aplaudindo isso. E na verdade está, né. Porque esse tipo de coisa é normalizado há tempos, apenas tomou a proporção midiática.
A questão é que se fala muito desse filme, relacionando isso à libertação sexual feminina quando NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA com a libertação da mulher em relação à sexualidade, e menos ainda com sustentar o fetiche masculino. A libertação feminina independe do prazer do homem, o que o filme mostra claramente que é uma das únicas preocupações dele, satisfazer seus desejos.
Nossa sexualidade é ignorada. Nos ensinam a não nos tocar, a não nos descobrir porque é feio, vulgar, errado. E ai nos dizem que isso é uma forma de libertação sexual, de descobrir nossos fetiches.
Na verdade isso induz muita mulher a se relacionar dessa maneira porque acredita que talvez assim seu parceiro lhe dê prazer, porque relações abusivas e controladoras são normalizadas.
Tomem cuidado com esse discurso ”libertador”, nossa prisão é bem maior do que se vê.
Não construam seus gostos e subjetividades em algo que a mídia mostra o tempo todo, em algo que se constrói a partir do outro e não de você.

Para ler o texto original de Pablo Villaça: http://naofo.de/32tm

Para ler o texto da psiquiatra: http://naofo.de/32t3

Para entender sobre a normalização dos relacionamentos abusivos, leia esse texto complementar: http://womansplaining.com.br/2013/12/03/relacoes-abusivas-como-fomos-ensinadas-a-aceitar/

Amélia Autumn