Categoria: Educação

Três vezes. E só isso.

No dia em que eu escrevo esse post, faltam 13 dias para eu ir embora da Irlanda. Depois de (praticamente) um ano nesse país, eu posso dizer que metade de mim gostaria de ficar para sempre. A outra metade sente saudade de vários aspectos da minha vida no Brasil.

Para ser bem sincera, o que eu mais sinto saudade do Brasil são os pequenos confortos que eu tinha. O conforto da cama de casal, de ter pais que me levavam à vários lugares de carro, de ter alguém que fizesse a minha comida e/ou lavasse a minha louça depois… São pequenos luxos que aqui na Irlanda eu vivo completamente sem. Foi um ano dormindo em cama de solteiro, andando muito à pé e fazendo minhas próprias marmitas para não ter que ficar comendo fast-food todo dia (e lavando toda a louça depois).

Mas se tem uma coisa que eu vou realmente sentir falta da Irlanda, realmente mesmo, é a paz de andar na rua.

Como assim, Olívia?

Todos os dias, eu vou e volto do meu estágio a pé. São, praticamente, 1h30 de caminhada entre minha acomodação e minha universidade. Eu geralmente vou com uma calça de ginástica, daquela que molda no corpo, camiseta e uma blusa.

E eu nunca precisei colocar uma blusa amarrada na cintura para disfarçar a bunda.

Porque aqui, mexeram comigo na rua três vezes em um ano.

Vocês tem noção da maravilha que é isso?

É claro que o ideal seria que nunca tivessem mexido comigo nem nada, mas quando você leva inúmeros assédios no caminho de 15 minutos entre a sua casa e a academia no Brasil, três vezes em um ano é uma benção.

Eu consigo lembrar de todas as vezes que mexeram comigo na rua durante o ano. No Brasil, eu mal conseguia lembrar de todas as vezes que mexeram comigo no dia. E eu posso dizer com a boca cheia que esse é o principal motivo pelo qual eu nunca gostaria de ir embora da Irlanda (e da Europa em geral). A comida boa e barata, os ambientes amigáveis, a universidade que é cenário de filme… nada, nada me deixa com o coração mais apertado do que ter que deixar para trás esse liberdade de ir e vir sem ser atormentada.

A liberdade de poder andar do centro da cidade até em casa à noite com a certeza de que eu vou chegar em segurança.

A liberdade de passar por um grupo de homens bêbados e saber que eles não vão me atormentar em nenhum instante.

A felicidade que me dá ao ver várias meninas muito bêbadas e nenhum homem se aproveitando disso.

A educação que um povo dá aos seus homens, de que as mulheres não são objetos, e sim pessoas, com sentimentos e vontades próprias.

Espero que, um dia, eu também possa sair do meu Brasil e dizer que sinto falta de não ter o machismo cerceando meu direito basiquinho.

Parto humanizado e o serviço de doulas: Desmistificando

Gostaria de agradecer à Luana Xavier que se dispôs para escrever esse texto, explicando o que é o parto humanizado, o que é o serviço de uma doula, desmistificando todos os sensos comuns sobre o parto e mostrando que há opções menos agressivas e violentas para mulheres que passam por esse momento.

Obrigada por dividir conosco seu conhecimento, experiência, por ter dedicado tempo e coletado tantas informações enriquecedoras para que as mulheres que estão grávidas, possam procurar se aprofundar mais nessas questões e tirar suas dúvidas.

Fui convidada pelo blog para falar sobre aquilo que é o foco da minha militância feminista: a humanização do parto e do nascimento. Este assunto me mobiliza de tal modo que modificou, inclusive, minhas aspirações profissionais: formei-me doula e educadora perinatal após 1 ano militando pela causa e de ter percebido que precisamos cada vez mais da inserção destas novas figuras no cenário de atenção ao parto em nosso país. Além disso, sou uma das moderadoras no facebook do grupo Cesárea? Não, obrigada!, bem como integro a rede Parto do Princípio – cuja luta é focada nos direitos e no protagonismo feminino nos processo de gestação, parto e pós-parto. Vou destrinchar, com este texto, as bases principais para o entendimento acerca de nossa luta e vocês podem me contatar depois em caso de dúvidas remanescentes.

Acho que o primeiro passo é esclarecer o que é o parto humanizado. Quando falamos em humanização do parto e do nascimento estamos nos referindo a um conjunto de práticas que serão adotadas com o propósito de garantir ao binômio mãe-bebê o máximo de respeito ao protagonismo feminino, às suas escolhas e decisões a respeito de gestar e parir; bem como o mínimo de intervenção possível (e que seja, de fato necessária quando houver) em todo o processo fisiológico, condicionada à escolha informada da mulher, baseada em evidências científicas sólidas, e dentro de uma lógica de individualização do cuidado. Infelizmente, isto não é o que vem ocorrendo em nosso país, o que leva a alarmantes 52% de cesáreas entre as redes pública e privada (dados do Ministério da Saúde) – quando o aconselhado pela OMS seria 15% – e ao índice de que 1 a cada 4 mulheres sofrem violência obstétrica em nosso país (dados da Fundação Perseu Abramo).

Deste modo, nosso movimento preconiza que a mulher seja amplamente esclarecida sobre a fisiologia do parto e do nascimento; as possibilidades de locais onde o parto pode ocorrer e de escolha de equipe para assisti-la; as alternativas (farmacológicas ou não) de alívio da dor no trabalho de parto; o direito de ter um acompanhante ao seu lado no pré, parto e pós-parto; os procedimentos que o bebê deverá ou não ser submetido ao nascer; a possibilidade de ter uma profissional (doula) que auxilie neste momento, dentre outras questões. Nós acreditamos que o parto é um evento fisiológico e que deve ser levado como tal. Assim, a adição de intervenções só deve ocorrer quando há uma indicação clara e deve ser discutida e autorizada pela parturiente.

Há, ainda, muita desinformação a respeito da humanização e muitos conseguem vender gato por lebre por aí. Apontam o uso de incensos, música na sala de parto e velas como humanização. Ok, estes artifícios são utilizados, caso a mulher deseje, em muitas situações, mas humanizar não é só isso, como pudemos perceber; entramos, então, no difícil  processo de encontrar alternativas à realidade violenta na qual estamos inseridas.

Como apontei mais acima, vivemos um momento de extrema medicalização e violência no parto. Como situações de crise sempre geram respostas à altura, igualmente temos visto o crescimento da mobilização em torno das condições para que as mulheres tenham acesso a serviços cada vez melhores na hora de parir. A criação de demanda por nossa parte dá o tom desta mudança: atualmente, estamos em franco desenvolvimento da Rede Cegonha, do Ministério da Saúde, com experiências bastante contundentes, como ISEA, em Campina Grande e a Maternidade Sofia Feldman, em Belo Horizonte. Além disso, cresce o número de equipes particulares que estão adequando suas práticas e se tornando opções de qualidade para as mulheres.

A dica mais preciosa para quem quer conseguir um parto humanizado em sua cidade é procurar um grupo de apoio. Os grupos de apoio apoiados pela Parto do Princípio são grupos presenciais, periódicos e gratuitos, que se reúnem com o intuito do empoderamento da mulher e do casal grávidx para a gestação e parto. Nestes grupos, circulam informações a respeito das possibilidades que são encontradas em cada cidade para conquistar o parto desejado. Ouvindo as experiências de outras mulheres, como se deu a conduta da equipe que as acompanhou e como foram os desfechos dos partos, as gestantes se munem de muito mais informação e dados para elas mesmas buscarem seus caminhos próprios. No site da Parto do Princípio há uma lista deles (http://partodoprincipio.blogspot.com.br/2011/09/lista-de-gapps.html).

Outro conselho é buscar uma doula. A doula é uma profissional que dará apoio físico e emocional para a mulher na gestação, no parto e no pós-parto. A doula ajuda no empoderamento, fornecendo informações baseadas em evidências científicas; atua no parto com massagens, relaxamentos, auxilia a parturiente a encontrar posições confortáveis e blinda a mulher de eventuais interferências do ambiente naquele momento; e atua no pós-parto com auxílio à amamentação e cuidados com o bebê. A figura da doula não deve ser confundida com a do acompanhante, uma vez que ele está envolvido emocionalmente com aquele momento. A doula também não executa procedimentos técnicos, cabendo estes à equipe de escolha da parturiente. Há um site onde existe um cadastro de doulas (http://www.doulas.com.br/) que atuam em nosso país.

Indico também que vocês assistam ao documentário O renascimento do parto, de Eduardo Chauvet e Érica de Paula. Este é um filme que desnuda a realidade obstétrica de nosso país, mostrando todas as faces do problema multifatorial que enfrentamos e que levou aos números alarmantes que já expus. O filme já se encontra à venda em DVD e há exibições gratuitas acontecendo em várias cidades do país.

Por último, com a internet, o empoderamento feminino foi facilitado em muitas frentes e no que se refere ao parto não poderia ser diferente. Há uma série de grupos no facebook, bem como listas de discussão e sites que dão informações a respeito da humanização do nascimento. Deixo aqui uma lista deles que pode auxiliar, e muito!, nessa busca.

Eu quero parto normal! (site com informações para busca do parto normal) – http://www.euqueropartonormal.com.br/eqpn/

Cesárea? Não, obrigada! (grupo de apoio virtual ao parto natural e contra as falas indicações de cesariana) – https://www.facebook.com/groups/cesareanao/?fref=ts

Estuda, Melania, estuda! (blog da Prof. Dra. Melania Amorim, obstetra de Campina Grande, referência da humanização em nosso país) – estudamelania.blogspot.com.br

Cientista que virou mãe (blog sobre humanização do parto, maternagem consciente e medicalização da infância) – http://www.cientistaqueviroumae.com.br/

GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa) – http://www.maternidadeativa.com.br/

Parto no Rio (site de informações sobre como parir no Rio de Janeiro) – http://www.partonorio.com/

Contribuição e texto de Luana Xavier

Cis e trans e o grupo LGBT: As diferenças entre sexualidade e identidade de gênero

Esse texto é de autoria de Daniela Andrade, e foi postado com autorização prévia da autora. Qualquer dúvida mandem email para womansplaning@gmail.com ou entrem em contato conosco através da nossa página no facebook Womansplaining.

Amélia Autumn

 

O que é cis ou cisgênero?
Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com pênis e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero).
Cisgênera é uma mulher que nasceu com vagina/vulva e se expressa socialmente como mulher (expressão de gênero), é decodificada socialmente como mulher (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para uma mulher, e reconhece-se como mulher (identidade de gênero), logo, é uma mulher (gênero).
Ao passo que transgênero é o contrário disso. Ou seja, são pessoas que apesar de terem nascido com pênis podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com um pênis e, logo, foi compulsoriamente designado como homem. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter um pênis, foge ao conceito de homem.
Assim como transgêneros são pessoas que apesar de terem nascido com vagina/vulva podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com uma vagina/vuvla e, logo, foi compulsoriamente designada como mulher. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter uma vagina/vulva, foge ao conceito de mulher.
Dentro do grupo das pessoas transgêneras há as pessoas travestis, transexuais, crossdressers, agêneras, bigêneras, genderfuck, e tantas outras classificações.
As definições não devem ser engessadas e nem limitar identidades, de forma que, a melhor definição para uma pessoa é aquela que ela própria lhe dá. De toda forma, é importante pensar nessas definições para que não se corra o risco de se achar que a palavra GAY dá conta de todas as identidades dentro do arco da diversidade identitária. Como uma palavra que diz respeito a uma pessoa que possui ORIENTAÇÃO SEXUAL diversa daquela legitimada socialmente vai refletir na identificação de pessoas que podem inclusive serem héteros? Ou seja, identidade de gênero (o gênero com o qual me identifico) NADA TEM A VER com orientação sexual (o gênero pelo qual me atraio). Uma pessoa pode ser travesti ou transexual e ser hétero, homo, bi, assexual (…), assim como acontece com todo o restante das pessoas que estão dentro do grupo dos transgêneros. De forma que não, a palavra GAY não reflete todo o grupo, outrossim, inclusive há mulheres lésbicas que ressaltam que o termo lésbica é a palavra que denomina politicamente o grupo das mulheres homossexuais, não a palavra gay.
Veja, não se trata apenas de meras diferenças conceituais ou meras palavras diferentes pelo que se está lutando. 
Estamos lutando pela visibilidade das reivindicações das pessoas transgêneras que é bastante diversa das pessoas gays cis, ainda que estejam unidas por conta da discriminação que sofrem socialmente, em maior ou menos grau pra esse ou aquele grupo.
Quando se diz que a luta LGBT é a luta gay, que o movimento LGBT é o movimento gay, é importante ressaltar que pautas especificamente gays não atingem diretamente as pessoas transgêneras, uma vez que nem todas as pessoas transgêneras são gays. Vejamos, pelo que, de forma geral, escuta-se quando se ouve falar nas reivindicações do grupo LGBT:

– parada GAY
– movimento GAY
– orgulho GAY
– HOMOfobia
– casamento GAY
– adoção por GAYS
– família HOMOparental
– direitos HOMOafetivos

Pois bem, poderíamos perguntar, as pessoas gays passam pelas seguintes agressões?:

– ter o nome desrespeitado cotidianamente

– ter o gênero deslegitimado o tempo todo

– precisar evadir-se da escola dado o grau de agressões verbais e desrespeito INCLUSIVE vindas de professores e gestores escolares que insistem em não respeitar o nome social e o gênero da pessoa

– possuem o acesso ao banheiro barrado

– seus documentos não correspondem com aquilo que você é (nome e gênero)

– possuem sua identidade questionada frequentemente por todos aqueles que necessitam identificá-lo por meio dos seus documentos

– sua identidade é vista como patologia pelo consenso científico e faz parte do DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais) e do CID (Catálogo Internacional de Doenças), bem como pela OMS (Organização Mundial de Saúde)

– possuem os genitais questionados frequentemente por estranhos? (você operou? você tem pênis ou vagina?)

– acham que você é mais ou menos homem de acordo com o número de cirurgias que você fez

– você necessita de laudos e ofícios de médicos de diversas especialidades para que acreditem que você é o que você diz ser

– possuem enorme dificuldade de encontrar profissional habilitado para receitar hormônios próprios para o seu organismo (lembrando que os hormônios não foram feitos pensando nas pessoas trans* e a bula dos mesmos não corresponde àquilo que acontece dentro do corpo trans*)

– possuem o corpo identificado como “corpo errado” por toda a população (fulano nasceu no “corpo errado”, como se só o corpo cis fosse o corpo certo)

– sua identidade é vista como fetiche pela maioria esmagadora das demais pessoas

– esperam durante décadas para conseguirem fazer uma cirurgia de transgenitalização, algo que lhe custa enorme sofrimento psíquico e muitas vezes suicídio

– sua identidade está dentro das mais altas taxas de suicídio e assassinatos mundiais

– contratos de empréstimo ou locação de imóveis são negados com muita frequência por conta da sua expressão/papel/identidade de gênero

– o mercado de trabalho associa sua identidade à marginalidade, ao crime e portanto, é extraordinariamente difícil encontrar um emprego

– sua identidade é vista como habilitada para ocupar apenas trabalhos dentro da prostituição ou em salões de beleza

– a necessidade que você tem de fazer cirurgias (como transgenitalização, mamoplastia masculinizadora, mamoplastia de aumento, remoção de útero e ovários, feminilização facial…) é vista como capricho, sem sentido, e há um total descaso com isso por parte do governo

– você precisa viajar quilômetros ou pagar do próprio bolso para obter atendimento médico especializado para o seu caso

E tantas outras agressões, bem, parece que os gays cis não passam por esse tipo de coisa, de forma que não dá pra dizer que todo mundo dentro do grupo LGBT é gay e que a pauta desse grupo é a pauta gay, pois não, não é.
Assim, há de se fazer distinção clara entre homofobia (preconceito por conta da orientação sexual) de transfobia (por conta da identidade de gênero), já que inclusive a raiz da palavra HOMOfobia reduz-se ao seu radical HOMO que quer dizer igual, quando as pessoas transgêneras são as diferentes do estipulado adequado no que tange à expressão/papel/identidade de gênero. É uma distinção que deve ser feita inclusive pra se visibilizar as agressões específicas sofridas pelas pessoas transgêneras a fim de se trazer para o debate essa problemática e se encontrar caminhos para resolvê-la.
Quando uma pessoa transgêneras têm nome e gênero desrespeitados, ela está sofrendo de transfobia e não homofobia. Como costuma brincar o ativista e transhomem João W Nery: eu sou um transhomem hétero, eu sofro por conta da transfobia, não homofobia. Ou: vemos o tempo todo as pessoas falando das famílias homoparentais, mas e as transparentais ninguém diz, dos relacionamentos homoafetivos, mas e os transafetivos? As pessoas trans também constroem famílias e se relacionam.
Frequentemente vemos pessoas dizendo que aceitam e não têm nenhum problema com os gays, mas que travesti/trans já é algo demais, ou que ainda que aceitem os gays, travesti/trans não dá para aceitar. O que seria isso senão uma demonstração explícita de transfobia?
E, ainda que se diga que são conceitos muito novos, muito difíceis e que a sociedade não vai entender, todas essas desculpas não passam de mote para continuar a invisibilizar as demandas da população trans*, que são expressivas, urgentes e diversas daquelas da população gay cis, ainda que, novamente, todas essas identidades tenham uma luta em comum que é contra a heteronormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de um comportamento heterossexual, visto socialmente como o correto) e a cisnormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de aspectos cis/cisgêneros, vistos socialmente como o correto).

 

Texto de autoria de Daniela Andrade, postado por Amélia Autumn

Glossário

Acho muito importante que antes de mergulharmos em textos e definições a respeito de todas as questões que tangem o feminismo e as mulheres (sejam elas cis ou trans), fazermos um pequeno glossário que vai ser muito útil nessa nossa caminhada.

Existem outras questões importantes de serem pontuadas e explicadas e que, ao longo das postagens aqui no blog, procuraremos elucidar.

Não temos todos os termos e definições de palavras que vocês poderão encontrar aqui. Tanto em textos escritos por nós colaboradoras, quanto materiais disponibilizados para download. Por isso ressalto que qualquer dúvida ou colaboração para o glossário, enviem-nos um email womansplaning@gmail.com .

Lembrando que, gostaria de agradecer ao pessoal do http://incandescencia.org por permitirem que o Glossário fosse retirado do site. Espero que esse seja um material útil à todxs vocês que lêem o blog!

  • Apagamento (apagar): Apagamento é a tendência a não contemplar, excluir, remover, ignorar e substituir menções a uma minoria mesmo diante da relevância confessa dela em face da contemplação de outras de mesma importância/relevância no contexto.
    Um exemplo extremamente comum é utilizar a palavra “homofobia” como um genérico do preconceito contra pessoas não-hetero, como se (a) “homofobia” abarcasse todas as outras orientações sexuais minoritárias em si (b) estivesse contemplando todas as pessoas vítimas de violência heterossexista (c) toda forma de violência heterossexista fosse contra pessoas homo (apagamento).
    Outros exemplos próximos são o uso da sigla LGBT com intenção de significar minorias de diversidade sexual (“é preciso respeitar as pessoas LGBT”); a alteração das orientações sexuais que fogem à mononorma no registro histórico (“Ana Carolina, cantora homossexual”).
  • Capacitismo (capacitista): Capacitismo é a discriminação de pessoas com deficiência, isto é, de pessoas que recebem deficiência de um mundo inacessível a elas como uma classe desconsiderada pelas estruturas.
  • Classismo (classista): Que utiliza análises de classes para entender as opressões. Um exemplo de análise de classes é a nomeação da burguesia (a elite que detém direitos sobre a os meios de produção) e do proletariado (a massa cujo único bem significativo é a própria força de trabalho).
    • Não confundir com classicismo (classicista): discriminação de pessoas com base na sua classe social, manifestado como uma aversão, ódio, desprezo por pessoas pobres.
  • Cisgênero (cis): Cis são as pessoas cujo gênero que afirmam é o mesmo que aquele que lhes foi designado no nascimento. São as pessoas que não são trans*. Um homem que, ao nascer, foi designado homem, e que hoje afirma ser homem, é um homem cis.
  • Cissexismo: Cissexismo é um conjunto de noções que estabelecem as pessoas trans* abaixo das pessoas cis, normalmente de forma institucional. A noção de que o gênero é definido pelo corpo, de que uma mulher ou homem deve ser de uma determinada forma, de que corpos trans* são bizarros, de que existem apenas dois gêneros fixos, etc.
  • Especismo (especista): Especismo é a discriminação com base na espécie do indivíduo. Atualmente, o especismo justifica que animais não-humanos sejam utilizados como alimentos, transporte, cobaias, entre diversos outros usos, sem que nenhuma pergunta seja veementemente levantada sobre as implicações morais destes usos.
  • Estabelecimento: O Estabelecimento é a situação atual e, principalmente, o poder vigente que a sustenta. Serve para designar ao mesmo tempo as coisas como elas estão atualmente, e também as instituições que as mantém desta forma. É um conceito utilizado principalmente por anarquistas, que consideram que o Estado integra (e sempre integrará) uma estrutura de poder concentrado, e principalmente que, atualmente, serve como defensor, produtor e reprodutor da opressão.
  • Ideologia (ideológico): Ideologia é um conjunto de discursos que fazem aparentar falsamente que os interesses de quem sustenta o poder são os interesses de quem está sofrendo a opressão. A ideologia é uma forma de convencer a classe oprimida de que a situação atual é natural, normal, esperada, inevitável, de que sempre foi como está, de que sempre será desta forma.
  • Intersecionalidade (intersecional): Intersecionalidade é a contastação de que as diferentes formas de opressão, discriminação e destruição não agem separadamente sobre suas vítimas, e o reconhecimento de que é preciso re-centrar os esforços de resistência para que (a) não reproduzam estas formas de opressão, retendo assim certos privilégios na luta para destruir outros (b) a luta seja realmente pela libertação de todos os sujeitos colocados, ao invés de somente os sujeitos colocados que não sofrem outras opressões diversas.
  • Monossexismo (monossexista): Monossexismo é a priorização dos interesses e da contemplação de orientações sexuais que referem-se à atração por um único gênero (homossexual e heterossexual).  Uma atitude monossexista é, por exemplo, presumir que um homem que se relaciona com homens é necessariamente gay (homossexual). (Ver apagamento)
  • Reformismo (reformista): Forma de encarar as causas sociais e o anticapitalismo que descarta a luta de classes e a necessidade de empreender uma revolução, frequentemente de forma a descartar também métodos violentos de protesto e ações radicais no geral. O reformismo é, necessariamente, a ideia de que devemos permanentemente melhorar a situação trabalhando dentro do sistema, e aliando as classes, sem nunca empreender um esforço revolucionário que modifique o sistema de baixo para cima.
    • Não confundir com reforma: melhoria no sistema atual, empreendida através da luta organizada, que não necessariamente descarta a necessidade de uma ruptura com o sistema, e sua transformação radical.
    • Reformismo – Arquivo Marxista
  • Sexodiverso (pessoa sexodiversa): Termo guarda-chuva para todas as pessoas que não são heterossexuais e/ou não são cisgêneras (ver definição de cisgêneroneste mesmo glossário). Este termo é utilizado ao se falar sobre diversidade sexual para não apagar nenhuma identidade que desvia da heteronormatividade e da cisnormatividade. Pessoas bissexuais, panssexuais, homorromânticas, transgêneras, são alguns exemplos de pessoas sexodiversas.
  • Trans* (pessoa trans*): Termo guarda-chuva para todas as pessoas cujo gênero é diferente daquele gênero que lhes foi designado no nascimento. Uma mulher que, no nascimento, foi designada um homem, por exemplo, é uma mulher trans*. Uma pessoa que identifica-se nem como homem, nem como mulher, mas que foi designada mulher no nascimento, é um outro exemplo de pessoa trans*.
    • Trans* termo guarda-chuva – Transfeminismo
    • Sororidade – Sororidade vem do latim, soror (irmã), e significa irmandade entre mulheres. De maneira prática, designa os momentos e alianças em que mulheres estão unidas entre si, destruindo os mitos de rivalidade, de que mulheres são falsas etc.

Recomendo também o glossário do Questões Plurais.

Aproveitem e utilizem esse glossário para esclarecer suas dúvidas sobre termos utilizados. Qualquer outra dúvida, entrem em contato através do nosso email womansplaning@gmail.com ou então deixe seu comentário.

Confiram o http://incandescencia.org

Também recomendo o http://euquesouintolerante.wordpress.com excelente blog de outrxs companheirxs de luta.

Obrigada, e até o próximo post!

Amélia Autumn