Categoria: Machismo

Metal Gear Solid V e o estereótipo personificado

Metal Gear Solid V e o estereótipo personificado

Primeiramente, preciso dizer que desde a infância sou muito fã da série Metal Gear Solid. Snake é um dos meus personagens favoritos e eu simplesmente adoro aquela jogabilidade, sou muito fã de jogos stealth. Segundamente, também é necessário que eu te informe, queridx leitorx, que eu não joguei Metal Gear Solid V ainda. Por falta de tempo, por falta de dinheiro. Todo mundo sabe como games estão caros aqui no Brasil, mas isso é assunto pra outro post. Minhas opiniões sobre o assunto aqui tratado são referentes ao que eu li sobre Quiet, aos vídeos que assisti, e sobre o merchandising da personagem. Vamos lá então?

Vale lembrar que, apesar de eu não ter jogado MGS V, existe alguns spoilers brandos sobre a personagem aqui nesse post. Esteja avisado, marujx!

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Três vezes. E só isso.

No dia em que eu escrevo esse post, faltam 13 dias para eu ir embora da Irlanda. Depois de (praticamente) um ano nesse país, eu posso dizer que metade de mim gostaria de ficar para sempre. A outra metade sente saudade de vários aspectos da minha vida no Brasil.

Para ser bem sincera, o que eu mais sinto saudade do Brasil são os pequenos confortos que eu tinha. O conforto da cama de casal, de ter pais que me levavam à vários lugares de carro, de ter alguém que fizesse a minha comida e/ou lavasse a minha louça depois… São pequenos luxos que aqui na Irlanda eu vivo completamente sem. Foi um ano dormindo em cama de solteiro, andando muito à pé e fazendo minhas próprias marmitas para não ter que ficar comendo fast-food todo dia (e lavando toda a louça depois).

Mas se tem uma coisa que eu vou realmente sentir falta da Irlanda, realmente mesmo, é a paz de andar na rua.

Como assim, Olívia?

Todos os dias, eu vou e volto do meu estágio a pé. São, praticamente, 1h30 de caminhada entre minha acomodação e minha universidade. Eu geralmente vou com uma calça de ginástica, daquela que molda no corpo, camiseta e uma blusa.

E eu nunca precisei colocar uma blusa amarrada na cintura para disfarçar a bunda.

Porque aqui, mexeram comigo na rua três vezes em um ano.

Vocês tem noção da maravilha que é isso?

É claro que o ideal seria que nunca tivessem mexido comigo nem nada, mas quando você leva inúmeros assédios no caminho de 15 minutos entre a sua casa e a academia no Brasil, três vezes em um ano é uma benção.

Eu consigo lembrar de todas as vezes que mexeram comigo na rua durante o ano. No Brasil, eu mal conseguia lembrar de todas as vezes que mexeram comigo no dia. E eu posso dizer com a boca cheia que esse é o principal motivo pelo qual eu nunca gostaria de ir embora da Irlanda (e da Europa em geral). A comida boa e barata, os ambientes amigáveis, a universidade que é cenário de filme… nada, nada me deixa com o coração mais apertado do que ter que deixar para trás esse liberdade de ir e vir sem ser atormentada.

A liberdade de poder andar do centro da cidade até em casa à noite com a certeza de que eu vou chegar em segurança.

A liberdade de passar por um grupo de homens bêbados e saber que eles não vão me atormentar em nenhum instante.

A felicidade que me dá ao ver várias meninas muito bêbadas e nenhum homem se aproveitando disso.

A educação que um povo dá aos seus homens, de que as mulheres não são objetos, e sim pessoas, com sentimentos e vontades próprias.

Espero que, um dia, eu também possa sair do meu Brasil e dizer que sinto falta de não ter o machismo cerceando meu direito basiquinho.

O problema não são as mulheres, querido nerd. É você.

Acho que todo mundo que tem redes sociais, hoje em dia, já viu aquele amigo nerd/geek típico reclamando que ele trata as mulheres bem mas o que elas curtem mesmo são os cafajestes, ou que ele bajulou tanto uma garota específica mas ela o deixou na friendzone, ou qualquer coisa do gênero. Aposto que tem muitas meninas que, como eu, já viram seus ex postando imagens tipo  essa e, por um momento, por um milésimo de segundo, se sentiram como pessoas cruéis que deram o fora naquele suposto cara perfeito.

Mas foi só um milésimo de segundo mesmo, porque nós não somos obrigadas a continuar com alguém só porque essa pessoa nos trata bem. Nós não somos obrigadas a ficar com alguém só porque essa pessoa é legal com a gente (legal entre aspas, porque está cheio das segundas intenções). E não, não merecemos ser rotuladas como “vadias” só porque supostamente te deixamos nessa idiotice que você chama de friendzone.

Estou aqui para dizer que estamos cansadas dessa baboseira toda.

Você, nerd, não é melhor que ninguém por viver nesse mundinho de cultura pop.

Eu não vou definir aqui o que é um nerd (ou geek, seja lá como você prefere chamar). Honestamente, pra mim isso independe de quantos jogos que você já zerou, do número de HQs que você acompanha mensalmente ou da quantidade de Pokémons que você sabe o nome. Mas eu acho que todo mundo consegue imaginar um nerd desses de hoje em dia.

Pois bem, eu me considero uma nerd. Gosto muito de cultura pop, prefiro ação à comédia romântica e leio quadrinhos com frequência. Mas, apesar de me considerar nerd, eu odeio  a comunidade nerd.

Por quê? Porque os nerds-padrão são extremamente sexistas, machistas, elitistas e preconceituosos. E eu abomino isso.

Ripley mandando a real: estou feliz em desapontá-lo.
Ripley mandando a real: estou feliz em desapontá-lo.

Os nerds, em geral, se consideram “intelectualmente superiores” a qualquer outro mortal da face da Terra. Como o J. M. Trevisan disse nesse texto  aqui , o nerd-padrão vê o seu mundinho “como um reino que ele conquistou a duras penas e ao custo de muitos pescotapas e que é dele”. Esse mundo particular criado pelo nerd-padrão pode ser resultado de um processo de “isolamento”, no qual o nerd se vê como “vítima” da friendzone e das “vadias” que não ficam com ele, mas sim com os “cafajestes”, que são os garotos que conseguem sair e ficar e beijar as garotas do mundo.

Esse mundo cheio de relações deturpadas afeta a cabeça desse ser que, teoricamente, é “intelectualmente superior”; e, dessa forma, eles  não admitem que as garotas que os rejeitam tenham “acesso” ao conteúdo de seu reino particular , afinal, foi ele que se estrepou todo para chegar até ali, certo?

Com isso, todas essas “vadias” que adentram no mundo dos jogos eletrônicos, RPG, quadrinhos, livros e filmes de cultura pop são altamente hostilizadas pelos atuais habitantes desse lugar. Esses garotos que, provavelmente, já foram alvo de bullying na escola trocam o papel de vítima para o de agressor,  ameaçando de estupro mulheres que se interessam por RPG  e  usando ofensas misóginas com aquelas que gostam de jogos online , por exemplo.

Mas é claro que o problema não acaba aí. As garotas são “vadias” porque entram em um mundo que, teoricamente, não as pertence. Mas não é só por isso…

Friendzone MATA!

cala a boca

Uma das melhores definições de friendzone que eu achei foi essa:

O conceito é simples, o cara (geralmente o cara) gosta muito de uma menina, mas ela não consegue ver o quanto ele é boa praça e o coloca na TERRÍVEL zona da amizade, onde ele é obrigado a não ficar com ela enquanto assiste um monte de caras não tão legais quanto ele tendo a chance. Esse é um problema que aflige praticamente todos os “caras legais” do mundo, porque mulher só dá valor pra babaca pegador.

Eu acreditava muito mais em friendzone no passado, mas tudo isso mudou quando eu fui colocada no papel que eu nunca tinha ficado: o de  friendzoneador  (se é que esse termo existe). Depois de uma série de circunstâncias, lá estava eu sendo bombardeada indiretamente por imagens tipo  aquela  que eu coloquei no começo do post, de um cara que queria muito continuar comigo, mas que simplesmente não rolava mais. E eu percebi que essa “pressão” indireta de ter que ficar com alguém só porque essa pessoa te trata bem é horrorosa.

Ela disse que só queria que fossemos amigos… que vadia.
Ela disse que só queria que fossemos amigos… que vadia.

Primeiramente:  quem foi que disse que você é um cara legal?  Sua mãe? Você mesmo? Seus amiguinhos que são iguais a você? Segundamente:  ninguém é obrigado a ficar com alguém só porque essa pessoa é fofa , ou te trata como uma princesa/príncipe. Se você não sente atração pela pessoa, não há nada que você possa fazer, por mais que o outro envolvido na história mande indiretinhas sobre o fato de você “pisar” nele. Nerdzinhos, vocês tem que aceitar que as mulheres  tem vontades , e ela não é nenhum demônio ou nenhuma criatura imbecil caso a vontade dela  não seja você.  E   caro  friendzoneado , não há nada que  você  possa fazer em relação à essas vontades! Se outra pessoa não te quer, siga o conselho da tia Elsa e  let it go ! Ou siga o conselho do tio Jimmy, do Matanza:

Se a mulher que voce quer, não te quer mais
E você só foi perceber isso tarde demais
Tudo bem, pois não faz a menor diferença no fim

Além disso, se você se aproximou de uma garota e foi legal com ela com o único propósito de tentar alguma coisa além disso,  você é um babaca .

E se vocês acham que eu estou exagerando sobre dizer que friendzone mata, você já ouviu falar sobre um cara chamado Elliot Rodger? Ele parecia um cara legal. Escreveu um  manifesto  até. Olha uma parte dele:

Vocês meninas nunca se sentiram atraídas por mim. Eu não sei por que vocês meninas não se sentem atraídas por mim, mas vou punir todas vocês por isso.

Elliot Rodger era só mais um cara que acreditava na friendzone e que, por causa dela, cometeu o  Massacre de Isla Vista , que deixou 7 mortos (incluindo o atirador) e 13 feridos. Por causa dessa rejeição que era, teoricamente, culpa das mulheres, ele se achou no direito de matar e ferir pessoas.

Por favor,  parem com essa ladainha de friendzone . Se as garotas não te querem, talvez o problema não seja elas, e sim você. Talvez todo esse seu preconceito nerd-padrão-ninguém-entra-no-meu-mundinho seja o culpado. Podem existir um milhão de motivos, mas as mulheres serem “vadias” porque “só ficam com cafajestes” não é um deles.


PS: assumo que esse texto não saiu tão bom assim. Ele é mais um desabafo do que qualquer coisa, então saiu com mais emoção do que eu previa. Peço desculpas por isso.

Usei os seguintes textos pra me ajudar nesse artigo:

50 tons de repúdio à violência doméstica e ao capacitismo

cinquenta-tons-de-cinza

Como mulher e feminista, me senti na obrigação de escrever uma crítica pontual em relação ao 50 tons de cinza, filme baseado no livro de mesmo nome.

E lendo as resenhas críticas e outros pontos de vista em relação ao filme, senti raiva. Porque em todo e qualquer texto a respeito, estavam carregados de machismo, capacitismo e culpabilização.
Mas antes de entrar nessas questões, já deixo claro que essa postagem é uma nota de repudio direta à resenha crítica escrita por Pablo Villaça e à carta de uma psiquiatra dizendo as razões para que você, leitora, não fosse ao cinema assistir a esse filme.
Vou ser direta. 50 tons de cinza não é um filme romântico, não se trata de uma história de amor. 50 tons de cinza não é tampouco, um filme sobre BDSM. É um filme sobre abuso psicológico, abuso físico. O perfil do personagem principal demonstra claramente um desequilíbrio.
Ele trata sua parceira como trata suas coisas. Ele precisa ter o controle de sua vida, saber cada um de seus passos e ter a certeza de que ela pertence apenas à ele.
Não difere muito do que vemos nos casos de violência doméstica por aí. Homem controlador, abusador, que tem surtos de raiva e bate na parceira. Situações semelhantes e sintomáticas de todos os casos de abuso que conheço. O que difere é que o cinema deu uma visão romantizada do que é o abuso, de forma que se passa quase que imperceptível aos olhos daquelas que não conseguem perceber que já viveram relações abusivas muitas vezes semelhantes.
E elas não são culpadas, porque nossa sociedade a todo tempo normaliza e padroniza esses comportamentos como sendo parte natural do instinto do homem, o que não é verdade.
Chamá-lo de monstro tampouco torna compatível com nossa realidade. Pelo contrário, dá a ele uma característica quase que caricata, afastando completamente daquilo que vemos diariamente. E bem sabemos que nós conhecemos alguma mulher que passou ou passa por situação de abuso psicológico e físico, portanto é sim, uma realidade bastante conhecida.
Tanto no texto de Pablo Villaça quanto na carta da psiquiatra, que andam circulando pela internet, a questão da saúde mental foram apontadas como fator predominante para que a Anastacia se envolvesse com Grey. E aí entra o que eu apontei como capacitismo e culpabilização.
O que é tido como uma pessoa emocionalmente estável? Quem, hoje em dia, é emocionalmente estável? E vou além na questão: Quem deveria ser realmente criticado? Ela que se envolveu por nitidamente ser uma jovem que se deslumbrou com a vida que ele leva e que difere muito da sua realidade, ou ele que é claramente um abusador psicológico?
Conheço muitas mulheres que sofreram abuso psicológico, e eu mesma já fui vítima, por um ex namorado. Eu estava apaixonada e não conseguia perceber que o que eu estava vivendo era terror psicológico, era abusivo e que eu não precisava me submeter a isso. Eu só fui perceber o que havia passado quando tive contato com o feminismo e vi relatos de muitas outras mulheres que haviam passado pela mesma situação que eu.
O abuso psicológico mina sua autoestima e sua capacidade de discernir os fatos.O meu abusador destruía minha autoestima me humilhando, fazendo com que eu desacreditasse nas minhas capacidades. E é a arma de muitos dos abusadores. Muitos deles usam gaslighting (tentativa de te fazer desacreditar o que está vivendo ou dizendo, de maneira a ter controle sobre você, minando seu psicológico) para controlar suas vítimas e fazer com que elas continuem se submetendo a esse tipo de abuso. O abusador psicológico te afasta das pessoas, pra que você não consiga sair dessa situação.
Dizer que uma mulher vivendo essa situação é psicológicamente estável é ser idiota. Mas acusar uma mulher que acaba entrando nessa situação de que seu psicológico é desestruturado e por isso ela se submeteu a isso é uma grande mentira.
Nenhuma mulher quer viver situações de abuso e não se submete a esse tipo de coisa porque quer. Os abusadores possuem artimanhas de tal maneira que não se consegue desvencilhar dessa situação, até que a vítima consiga perceber ou com a ajuda de alguém, ou sozinha (isso quando a vítima não morre) e saia disso.
Para fazer uma crítica contundente não é preciso usar de argumentos machistas ou capacitistas. Basta uma análise até que superficial da nossa sociedade que dita o que é do comportamento masculino e o que é do comportamento feminino, e os estímulos que cada um recebe desde o nascimento.
A mulher é ensinada desde a infância a se submeter a certos tipos de comportamento dentro de suas relações. A aguentar humilhações, comportamentos agressivos porque são tidos como normais. E é exatamente pela normalização dessa violência contra a mulher, que tantas de nós acaba se submetendo a relações violentas e abusivas.
Anastacia não era desequilibrada.

50 tons de cinza não é  tampouco sobre libertação sexual feminina. E mesmo quando falamos sobre libertação sexual feminina sempre tem um conceito machista embutido nisso que só favorece aos homens (e sempre relacionando com fetichização de lésbicas e bissexuais, sempre).
50 tons de cinza está longe de ser sobre o BDSM (e aí, deixo a problematização sobre certas práticas e fetiches pra uma outra hora).
50 tons de cinza se trata de, mais uma vez, a violência doméstica ser naturalizada.
Quando um homem controla a sua vida, com quem você se relaciona, o que você faz. Quando um homem sabe exatamente cada passo que você dá, é possessividade, e é abuso psicológico. Porque ele transforma a relação em um cárcere, e a mulher em uma presa que deve ser mantida sob sua custódia.
Quando vemos filmes como esse, naturalizando esse tipo de comportamento, é como se toda uma sociedade estivesse aplaudindo isso. E na verdade está, né. Porque esse tipo de coisa é normalizado há tempos, apenas tomou a proporção midiática.
A questão é que se fala muito desse filme, relacionando isso à libertação sexual feminina quando NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA com a libertação da mulher em relação à sexualidade, e menos ainda com sustentar o fetiche masculino. A libertação feminina independe do prazer do homem, o que o filme mostra claramente que é uma das únicas preocupações dele, satisfazer seus desejos.
Nossa sexualidade é ignorada. Nos ensinam a não nos tocar, a não nos descobrir porque é feio, vulgar, errado. E ai nos dizem que isso é uma forma de libertação sexual, de descobrir nossos fetiches.
Na verdade isso induz muita mulher a se relacionar dessa maneira porque acredita que talvez assim seu parceiro lhe dê prazer, porque relações abusivas e controladoras são normalizadas.
Tomem cuidado com esse discurso ”libertador”, nossa prisão é bem maior do que se vê.
Não construam seus gostos e subjetividades em algo que a mídia mostra o tempo todo, em algo que se constrói a partir do outro e não de você.

Para ler o texto original de Pablo Villaça: http://naofo.de/32tm

Para ler o texto da psiquiatra: http://naofo.de/32t3

Para entender sobre a normalização dos relacionamentos abusivos, leia esse texto complementar: http://womansplaining.com.br/2013/12/03/relacoes-abusivas-como-fomos-ensinadas-a-aceitar/

Amélia Autumn

Pornografia: Uma discussão

A pornografia é um tema bastante delicado de ser discutido nos meios feministas. Por que? Porque algumas correntes acham que não há problema na pornografia, e algumas outras correntes lutam contra.

Pesquisando sobre o assunto pude perceber que existe meio que um consenso geral dos motivos que levaram ao surgimento da pornografia e para quais finalidades.

A pornografia foi criada inicialmente para gerar prazer e levar/induzir à masturbação ou até mesmo ao ato sexual. O alvo? Os homens, principais produtores e consumidores dessa indústria que gera lucros altíssimos baseados na exploração da imagem e da sexualidade da mulher.

A pornografia objetifica o corpo da mulher, o explorando até a exaustão. Alimenta também uma indústria de tráfico de mulheres, que poucas pessoas sabem.
Dentro da pornografia existe um falso conceito de escolha. Contrato assinado você não pode dizer ‘isso eu não faço, aquilo eu não faço’, as industrias desse tipo de mercado se alimentam disso.
A pornografia molda o comportamento sexual. Instiga a violência e a falsa dominação da mulher, nada mais é do que a submissão velada para alimentar um fetiche masculino.

Tem também uma outra questão muito importante que é a imposição de um modelo de corpo ideal para a mulher. Ele molda conceitos e corpos e isso não é legal, porque isso mexe diretamente com a segurança sobre sua performance sexual, sobre a sua sexualidade, sobre como ela lida com o seu corpo.

Sei que esse é um assunto bastante polêmico e que terá uma grande repercussão talvez, mas o propósito dessa postagem é trazer essa discussão à tona e apresentar alguns argumentos bastante consistentes do porque a pornografia é nociva. Ao procurar leituras não-feministas  sobre o assunto pude ver o posicionamento de muitos autores de artigos científicos sobre a fetichização da mulher e a indústria pornográfica de que há uma exploração da imagem do corpo da mulher para trazer prazer ao homem.

Existem dados que comprovam que a pornografia alimenta uma indústria do tráfico de mulheres, da prostituição, das drogas…É uma indústria feita de falsas escolhas. É uma ilusão achar que quem está ali é uma Sasha Grey na vida. Nem todas escolheram estar ali porque gostam do que fazem e lidam bem com sua sexualidade.

Em um texto que li de psicologia, um estudo feito com homens em que um video comum e um video erótico eram exibidos, na parte do vídeo erótico as partes do cérebro que trabalhavam era a da motivação e da recompensa.

Fazendo uma análise social sobre a pornografia, é fato que isso influencia diretamente na sexualidade da mulher e na forma como ela lida com o seu corpo, o que eu pretendo descobrir com meu projeto de pesquisa é o quanto isso afeta e até onde  isso vai.

Me deparei com um texto que fala sobre um novo tipo de pornografia: A pornografia feminista. Eu sempre me questionei até que ponto essa nova forma de pornografia não seria nada mais nada menos do que o reflexo de uma indústria machista. Nesse tipo de produção, entra na discussão a questão do empoderamento da mulher, e existem algumas regras para a pornografia feminista: Ao menos uma mulher deve estar envolvida no processo de produção, a mulher tem que ser a figura principal e o prazer feminino é o mais importante. Por isso, um formato diferenciado dessa pornografia foi feito visando atender à sexualidade da mulher. A explorar esse prazer da mulher com seu próprio corpo e com x seu/sua parceirx.

Vou deixar linkado aqui o artigo que trata dessa questão da pornografia feminista e gostaria de levantar uma questão aqui: A pornografia é nociva?

Neste link você poderá fazer  o download do PDF. São 12 páginas de uma discussão bastante interessante e que leva à reflexão. Se alguém tiver interesse em ler a minha revisão bibliográfica sobre o assunto, posso passar também.

http://www.uff.br/ciberlegenda/ojs/index.php/revista/article/view/507

Espero a manifestação de vocês sobre esse assunto tão complexo.

Amélia Autumn

Caso Fran e a falta de empatia

Quando vi a reportagem sobre o caso Fran pensei comigo “Mais uma que foi difamada e que ficará marcada por causa do namorado”.
Esses casos são muito comuns, quase que semanalmente é alguma coisa do tipo aparecendo na mídia. Sempre as mulheres são expostas por seus companheiros em momentos muito íntimos.
O que acontece é que normalmente filmar ou fotografar o ato sexual, ou até mesmo enviar fotos sensuais para o parceiro é um fetiche bastante comum entre as pessoas. Isso acontece porque existe um voto de confidencialidade e de confiança entre as partes.
Mas sempre essa confiança acaba sendo quebrada, ou a vida do casal é invadida.
Essa moça confiava que a intimidade ficaria apenas entre os dois, o que não aconteceu. E o que nós vemos logo em seguida é isso, linchamento da moça. A vítima deixa de ser vítima e é culpada. E os comentários de linchamento pioram mais quando é um caso de traição. A mulher é chamada de vagabunda pra baixo.
Eu falo que isso é bem semelhante à cultura de estupro que existe na nossa sociedade arcaica, falsa moralista e machista.
É difícil ver empatia em casos como esse, principalmente se você se der o trabalho de ler os comentários na matéria. É disso pra baixo, é horrível, é de cortar o coração.
Essa moça teve sua vida invadida, teve sua vida transformada numa piada eterna, porque o que cai na internet, dificilmente se apaga. Uma vez online, as pessoas salvam, copiam, reproduzem de maneira infinita. Essa moça teve a vida dela estragada para sempre. E tudo por confiar no parceiro. Pobre moça.
O que ninguém percebe é que cyberbullying tem uma dimensão absurda. Causa um impacto psicológico muito forte e destrói a vida da vitima e de todos aqueles que a rodeiam. Fiquei sabendo que nem a filha dela foi poupada nessa história toda.
As pessoas se colocam no lugar de juízes e a condenam à sentença da humilhação pública sem fim. A condenam à uma depressão que pode levar muitas vezes, ao suicídio.
O que me surpreende ver é a hipocrisia das pessoas. Conheço muitos casais que tem o hábito de tirar fotos sensuais para o parceiro. Já conheci várias vítimas de cyberbullying que tiveram videos de sexo divulgados na internet.
A vítima deixa de ser vítima. A vítima passa a ser culpada de uma coisa que foi feita CONTRA ELA.
O que me entristece é saber que essa moça teve toda a sua vida mudada, e nunca mais terá paz.
O que me entristece é que as pessoas raramente se colocam no lugar do outro, raramente praticam a empatia.
O que me espanta é perceber como o ser humano consegue ser maldoso, cruel.
Existe um filme chamado Disconnet que eu recomendo assistirem, trata da questão do cyberbullying em diferentes esferas, e mostra a consequência cruel disso na vida e na estrutura das pessoas.
Praticar a empatia não dói e não custa nada. E te torna uma pessoa digna, melhor.
Linchar, julgar, rechaçar é muito fácil. Estender a mão em apoio à vítima, praticar a empatia? Ah…Isso é difícil, e raro.
Fran, quero dizer que mesmo não te conhecendo, estou te desejando muita força nesse momento. E desejo que a justiça seja realmente feita e esse homem pague pela humilhação e sofrimento causados à você.

Quando nós confiamos nx nossx parceirx, todas somos Fran.
Força Fran, o Womansplaining está ao seu lado.

Amélia Autumn.Imagem

A sexualidade da mulher : O tabu do século

Desde pequena a mulher é criada para o lar. Entender ou falar sobre sexo é algo que não faz parte do universo feminino. Aprendemos quando criança, que masturbação feminina é feio, e que a masculina é normal. Essa repressão da sexualidade feminina acarreta em vários problemas inclusive na vida adulta.
Quais? Não conhecer o próprio corpo, ou tratar o sexo como um assunto tabu. E de fato, isso traz consequências na forma como a mulher lida com o autoconhecimento, com seu próprio corpo (a imagem que se tem dele), e com o sexo em si.
Vejo diariamente homens fazendo colocações do tipo ‘Mulher que dá no primeiro encontro é vadia, não serve para namorar’. Não somente homens, é claro, mas a grande maioria.
Entendo que mulheres que reproduzem esses conceitos não questionam dos porquês, apenas reproduzem conceitos machistas que foram aprendidos dentro de casa.
Não é nenhuma novidade que, a mulher que expressa sua sexualidade, que lida com o sexo de maneira natural (como deve ser lidada), que faz sexo quando sente vontade e que toma a iniciativa é tida como vadia. Isso tudo é consequência da sociedade machista na qual vivemos.
Aí muitos vão dizer ‘Mas as coisas estão mudando, não é mais assim’. Bem, eu digo que não, elas não estão mudando, e um exemplo disso é o programa que passou na terça feira na band, ‘A liga’, em que a sexualidade da mulher foi abordada. Vários homens foram entrevistados, e ficou claro que o homem não se importa, grande parte das vezes, com o prazer da mulher na hora do sexo. Ele a vê, nada mais nada menos, do que como objeto para o seu prazer. Além é claro, de colocações bastante machistas a respeito da mulher que expressa sua sexualidade, que tem uma liberdade sexual.
Essas barreiras sempre existiram. Mas é importante saber que tudo isso veio com a religião. Na Idade Média, a Igreja constituiu o casamento, não como uma instituição sagrada somente, mas como uma forma de controlar a vida sexual das pessoas, tidas como fiéis, e ainda por cima ter controle ainda maior sobre a mulher, tida como bruxa quando essa sentia prazer durante uma relação sexual.
Acho que hoje em dia, são poucas as pessoas que não tem consciência de que nessa época, até mesmo as posições sexuais eram controladas pela Igreja.
Recentemente me perguntaram o que eu achava da mulher que carregava camisinha em sua bolsa. A minha resposta? Bem, carregar camisinha é um sinal de responsabilidade que indepente do sexo. Se a mulher sente tesão, e quer transar, nada melhor do que garantir a segurança do sexo. Isso não é um papel obrigatoriamente masculino, mas aquela que carrega camisinha em sua bolsa ainda é mal vista.
Fazendo esse trabalho sobre sexualidade, indústria pornográfica e a mulher, percebo que existe ainda um tabu muito grande quando se fala do mercado do sexo para o público feminino. Por mais que existam brinquedos e artificios que hoje acabem estimulando a mulher a conhecer seu próprio corpo, falar abertamente sobre isso ainda é algo raro.
Poucas mulheres conhecem realmente seu corpo e suas zonas erógenas, por conta da masturbação feminina ter sido reprimida desde sempre. É preciso quebrar com esses conceitos, e estimular que a mulher conheça seu próprio corpo, entenda aquilo que lhe dá prazer, e aquilo que ela não gosta ou não se sente confortável em fazer.
Somente dessa maneira, abordando a sexualidade feminina com naturalidade, e quebrando com conceitos machistas que são herança de uma sociedade patriarcal, é que a mulher realmente vai ser livre desses preconceitos e vai passar a desenvolver melhor sua sexualidade, e conhecer e amar seu próprio corpo.
Livrando-nos de padrões estéticos, de preconceitos e tabus, é que vamos ser mais felizes e plenamente realizados.
Não é feio a mulher sentir tesão e transar no primeiro encontro, no segundo ou no terceiro. Feio é o preconceito e machismo de uma sociedade hipócrita, que deseja que a mulher tenha um comportamento sexual diferente entre quatro paredes, mas que a reprime quando deveria na verdade, permiti-la conhecer a si mesma.

Amelia Autumn