Categoria: Transfobia

A mulher no mercado de trabalho

Existe um discurso recorrente de que nós mulheres, conseguimos igualdade quando se trata de emprego. Mas sabemos na pele que a realidade é um pouco diferente do que esse discurso costuma dizer.
Não é apenas questão de desigualdade salarial (em muitos cargos, mulheres continuam recebendo 30% menos do que os homens, mesmo tendo a mesma capacidade e currículo, e exercendo o mesmo cargo).
Em algumas áreas de atuação, o mercado de trabalho ainda é dominado pela maioria dos homens, e a capacidade da mulher é sempre colocada em dúvida.
Ainda existe a misoginia e o preconceito, e nós enfrentamos isso diariamente.

Também precisamos lembrar do caso de mulheres trans, que muitas vezes não conseguem emprego por conta do machismo e preconceito, e que acabam sendo marginalizadas pela sociedade.
Aqui, um relato de uma mulher que passou por situação de preconceito, onde sua capacidade de assumir o cargo foi colocada em dúvida. 
Será mesmo, que nós já conquistamos nossos direitos? Talvez seja hora de reabrirmos esse diálogo.

Amélia Autumn

Relato de Gabriela Nascimento. (pseudônimo)

Quem nunca ouviu frases do tipo ” a mulher está ganhando espaço no mercado de trabalho “, ” a mulher é respeitada no meio profissional “. Ou então quem nunca leu no jornal que ” o número de mulheres com carteira assinada subiu 5,93%?” ( fonte: http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2013/03/08/cresce-participacao-da-mulher-no-mercado-de-trabalho ).

Mas o caso é que temos que tomar cuidado com os números, eles podem mascarar detalhes. Ora, o número de mulheres com carteira assinada aumentou, este é o fato, mas em que tipo de área profissional?

Bom, para ilustrar melhor esta realidade, que está em processo de mudança usarei meu próprio exemplo.

Trabalho na área de comércio exterior, um seguimento ainda dominado pelos homens, e a algum tempo atras estava em busca de uma colocação no mercado. Durante minha busca fui chamada para uma entrevista em uma das maiores empresas do ramo alimentício no Brasil, neste momento não é de meu interesse citar nomes, apenas vamos usar a letra B para ilustra-la.

O local da entrevista era longe da minha residência, tive de tomar um ônibus, um metro e um táxi para chegar até a empresa B (o que me gerou um custo desnecessário, afinal estava desempregada e precisava segurar as despesas ).

Uma vez dentro da empresa fui encaminhada para uma sala privada para a entrevista. Me sentei, e comecei a contar um pouco sobre o meu currículo. Em um dado momento fui interrompida e deu-se inicio ao seguinte dialogo:

Empresa B: ” Seu currículo é muito bom, porém este departamento só tem funcionários homens. Nós não queremos contratar mulheres.”
Eu: ” Desculpe, não entendi seu posicionamento. “
EB: ” É que mulher você sabe como é…”
Eu: ” Não, não sei. Poderia me explicar ?”
EB: ” É que só tem homem neste departamento, e mulher sempre quer ser sensual, gosta de ser o centro das atenções, dar em cima…”

Neste momento eu me levantei e agradeci pelo tempo, e fui embora. Fiquei mais alguns meses desempregada e desanimada, afinal será que não haveria um espaço pra mim na profissão que eu queria?

Bom, para encurtar a história o fato é que meses depois consegui uma colocação na empresa L, a qual (coincidência ou não) presta serviços a empresa B. Na empresa L eu sou a única mulher em meio a dez homens, todos me respeitam como colega e como profissional.

Nem sempre a mulher tem a chance de conseguir uma colocação no mercado de trabalho com a profissão na qual ela escolheu exercer. Como podemos ver no relato acima, o fato dela ser mulher a prejudicou na entrevista. Até que ponto teremos de tolerar esse tipo de comportamento? Até quando nós mulheres vamos ser lidas dessa maneira?

Amélia Autumn