Hey femininja! Mad Max: Fury Road é o filme que você estava esperando!

Quem diria que, um dia, um filme blockbuster de ação irritaria um grupo de “direitos dos homens”? Pois bem, femininja linda, existem vários motivos para você ir assistir esse filme, então vai lá e depois vem pra cá ler o post e a gente conversa! (Spoiler: esse filme passa no Teste de Bechdel, fala sobre capacitismo e união de mulheres, OLHA SÓ QUE LINDEZA)

Em aspectos gerais, eu achei Mad Max: Fury Road (que eu vou só chamar de Mad Max) um dos filmes mais espetaculares que eu já vi na minha vida. É um filme que te deixa apreensivo do começo ao fim, e para mim, ele redefine o que é considerado um filme de ação (Mercenários, agora, é um filme de criança). O ritmo dele é muito intenso, com algumas pausas entre as cenas de ação para você poder respirar um pouco, porque enquanto essas cenas estão rolando… você não respira, não tira o olho da tela e tenta absorver ao máximo aquela loucura toda de um mundo pós-apocalíptico que tudo o que importa é água, combustível e balas. Todas as cenas de combate são regadas com muitas explosões, carros, areia e… personagens femininas fortes.

Personagens femininas fortes? Foi isso o que ela disse, produção? Foi sim senhora!

max

O plot básico da história é bem simples: a Imperatriz Furiosa, da Cidadela onde há água, é incubida de buscar combustível e munição em outras cidades. Só que, em vez de fazer isso, ela esconde as cinco esposas de Immortan Joe (o vilão e “rei” da Cidadela) dentro do caminhão de guerra, a fim de salvar as meninas das garras do tirano que as usava unicamente como parideiras. O Max entra no meio disso tudo não como um personagem principal, ou como o herói aventureiro que vai salvar todas as mulheres desse filme, mas sim como uma testemunha e um ajudante.

ATENÇÃO: A PARTIR DAQUI, HAVERÃO SPOILERS. SE PRETENDE MESMO VER O FILME, CONTINUE DEPOIS.

Vou começar dizendo que esse filme passa com folga no Teste de Bechdel. Durante o filme, há um lampejo de romance, no qual uma das princesas (Splendid, a ruiva) tem um leve namorico com um Warboy (Nux), mas em nenhum momento isso é discutido. Todas as mulheres ali entendem que cada uma tem autonomia sobre si própria, e nenhuma delas tentou dissuadir Splendid de seu pequeno relacionamento com um dos garotos de Immortan Joe. E a importância do romance para o filme não é para ser “bonitinho” ou atrair mulheres para o cinema (como foi feito na trilogia O Hobbit), mas sim para, no final, evidenciar o quanto Nux ainda estava preso à sua religião maluca e suicida: afinal, a única pessoa para quem ele pode pedir para testemunhá-lo é Splendid.

À primeira vista, as princesas parecem frágeis e amedrontadas. Afinal, é isso que Hollywood nos ensinou, certo? Se a mulher é bonita e feminina, ela deve ser frágil. Só que não! Apesar de elas terem precisado da ajuda de Furiosa para escaparem, em todo momento elas estão participando ativamente de todo o processo, seja recarregando armas, vigiando a retaguarda, ajudando a cuidar do caminhão e também cuidando umas das outras. Esse filme ressalta algo muito importante que têm se enfatizado muito no feminismo que é a união das mulheres. Em Mad Max, todas elas se unem em prol da fuga e, posteriormente, com as Vulvalinis, em prol da sobrevivência. Mesmo quando uma fraqueja, a outra a ajuda; quando uma está na mira de uma pistola, outra a proteje. E isso, jovens, é lindo.

princesas

Outro questão apontada em Mad Max é o capacitismo. A Imperatriz Furiosa não tem o antebraço e a mão, e usa uma prótese. Uma das esposas de Immortan Joe, Angaharad, está grávida. Mas isso não as impede de nada. Furiosa tem uma cena espetacular de combate corpo-a-corpo com Max na qual ela está sem o seu braço mecânico, e mesmo assim ela avança a fim de defender tudo aquilo que ela já havia conseguido até aquele momento. Ela não tem medo e ela não hesita, mesmo em desvantagem. Idem para Angaharad; afinal, não é porque ela está grávida que ela não vá lutar pela sobrevivência. Inclusive, o que resulta na morte da personagem não é sua gravidez ou qualquer outro aspecto de fragilidade que ela possa estar passando por conta disso, e sim o tiro de raspão que ela leva de Max pouco depois de encontrá-lo pela primeira vez.

carro

Por último, mas não menos importante, a representação da masculinidade é “enaltecida” pela religião maluca criada por Immortan Joe. Afinal, todos que tivessem uma morte gloriosa iriam para o Valhala, onde haveria um McBanquete. Contudo, o que o filme mostra é que todo esse enaltecimento de masculinidade só gera um comportamento auto-destrutivo e suicida, que é mais provável que acabe em uma destruição de todos os homens presentes ali.

Enfim, se depois de tudo isso, você ainda acha Mad Max mais ou menos, ou não entendeu, ou está achando que o filme não tem história… bem, eu vou tomar a liberdade de dizer que você não é uma pessoa confiável. Esse filme é simplesmente incrível e me fez chorar diversas vezes, não porque é dramático ou triste, mas porque durante vários momentos eu entendi o olhar da Imperatriz Furiosa. Entendi o quanto dói sobreviver em um mundo cheio de barbárie liderado por tiranos. Entendi como não é fácil, mas que a carga é nossa, e a gente manipula ela do melhor jeito possível, seja com um caminhão de guerra ou escrevendo em um blog ❤


Usei esse texto aqui como fonte! 

A culpa é sempre da vítima

A culpa é sempre da vítima

Pelo título acima, eu poderia falar de estupro. Mas não é algo tão sério assim. É só mais um caso onde a culpa pode ser de qualquer um, menos da vítima em questão.

Há um tempo eu vi a seguinte notícia: “Marvel culpa ‘Elektra’ e ‘Mulher-Gato’ por falta de filmes de heroínas”. Fiquei com vontade de jogar a minha cabeça contra a parede. Tem tanta coisa errada aí que eu nem sei direito por onde começar.

Primeiro de tudo: por que diabos vocês culpam as heroínas em si, em vez de culparem quem fez o filme mal feito? Vocês tem toda uma equipe, desde diretores e produtores até o infeliz que deu a idéia do filme, para culparem. Mas é claro que a culpa vai cair aonde? No fato do filme ser sobre uma heroína/vilã, no feminino. Devemos admitir que Elektra, realmente, é uma péssima idéia: é uma personagem que não sustenta um filme sozinha, e ela veio simplesmente no embalo do velho filme do Demolidor. Mas Mulher-Gato? Dava pra fazer algo decente se quisessem. É uma personagem que, na minha opinião fecal, tem carisma sim com as mulheres, podendo ser algo muito além da presença feminina nos filmes do Batman.

Segundo de tudo: se, de acordo com o diretor executivo da Marvel, um filme fracassado de super-heroínas pode servir como justificativa para não haver mais tentativas, por que tivemos filmes depois de Batman & Robin e Demolidor? Ambos são péssimos, e mesmo assim, filmes de super-heróis continuam existindo e fazendo sucesso e atraindo público e etc e etc. Por que, me expliquem?

Terceiro de tudo (e isso é muito mais uma revolta pessoal do que uma razão de verdade): vocês pensaram um pouquinho na história do filme da Mulher-Gato? Porque, olha, é simplesmente muito clichê vocês colocarem uma super-heroína para lutar contra a indústra de cosméticos, hein.

Amigos, já passou o tempo que mulheres não gostavam de filmes de super-herói ou de quadrinhos. Hoje, vocês podem ir além de fazer um filme com heroínas atraentes somente para os homens (podemos citar Mad Max Fury Road aqui? ÓTIMO, porque já estou citando). Qual é o grande crime em agradar a outra parcela do público desses filmes que está ansiando por ser (bem) representada na tela?

Representatividade nas telas importa SIM! E não só algo hiper sexualizado ou menor perante os personagens masculinos: queremos mulheres que nos representem de fato. (É pedir muito? Eu acho que não.)

Eu sinceramente espero que Capitã Marvel e Mulher Maravilha estejam vindo aí como um pedido de desculpas. E o filme tem que ser muito bom pra gente ver se vai aceitar.

(Tradução da imagem: você não precisa do Coringa, Harley! Você nunca precisou! Você é muito boa para aquele gárgula! Ele usou você, te machucou, te recusou, te confundiu…)

Reapresentação e uma nova equipe

10370897_791457617589397_2008847171806831030_n

Antes de mais nada, esse é um post curtinho apenas para explicar o fato de não atualizarmos o blog há algum tempo, e também falar sobre as mudanças visíveis que aconteceram no blog (e outras não tão visíveis assim, mas que vocês vão sentir).

Peço desculpas, mas esse tempo de hiato foi necessário para reorganizar a minha idéia sobre o blog, sobre a estrutura e inclusive a aparência dele (O design tá lindíssimo e é culpa da Carol!).

Agora contamos com uma nova equipe que está cheia de idéias bacanas e muita vontade de fazer postagens bem bacanas e especiais. Nosso blog agora é dividido em seções para facilitar o acesso aos diversos conteúdos que pretendemos postar.

Também temos um espaço voltado pras minas que tiverem lojinhas virtuais, bandas que queiram divulgar, então é só entrar em contato com a gente através da inbox na nossa página no facebook (https://www.facebook.com/Womansplaning? ref=ts)  ou através dos comentários aqui (também temos twitter! https://twitter.com/womansplaining_) e passar os dados certinhos que a gente divulga no nosso cantinho especialmente criados pra vocês artistas! (vale comida, camisetas, artes de todos os tipos, música, e até serviços de doulas, cat/dogsitter, etc).

Contamos com uma equipe cheia de energia que está preparando muitas coisas legais pra vocês. Textos sobre o universo nerd e o feminismo, relatos que vocês mesmas podem enviar pra gente na nossa seção especial, traduções de materiais sobre feminismo, tudo isso e muito mais!

Espero que gostem da nova formulação do blog e continuem nos apoiando!

Um beijo, Nanda.

A Evolução da E3: Mulheres nos Games

A Evolução da E3: Mulheres nos Games

A indústria de games vem enfrentando dificuldades em lidar com seu público feminino, que a cada ano cresce mais. Segundo o The Guardian, 52% dos gamers são mulheres. Se estão jogando Kim Kardashian: Hollywood ou Call of Duty, a pesquisa não especifica. Mas mesmo assim, um público que era de 49% três anos atrás cresceu 1% ao ano. Um dado assim não deveria ser ignorado, deveria? Continuar lendo “A Evolução da E3: Mulheres nos Games”

Capacitismo, saúde mental e militância virtual.

Vamos falar sobre saúde mental e capacitismo.
Pelo titulo sei que essa postagem não parece estar relacionada ao feminismo, mas ela está diretamente ligada a nossa vivência enquanto militantes feministas.
Vejo dentro dos ambientes virtuais de militância e acolhimento, diversas mulheres que sofrem de graves transtornos mentais como depressão, bipolaridade, borderline, entre tantos outros, que acabam se agravando e por conta disso, se afastando dos meios de construção e militâncias virtuais.
Muitas dessas mulheres que procuram esses grupos, o fazem porque viveram situações de verdadeiro horror e querem apoio emocional. Situações como relacionamentos abusivos, abuso sexual, transtornos alimentares, entre outros. E o que acabam encontrando, muitas vezes, é um ambiente de intolerância para aquelas que estão começando no feminismo, ou ambientes hostis em que não há vez para falarem sobre seus problemas.
É também importante frisar, que por conta de transtornos mentais ou outros tipos de transtornos, essas mulheres acabam vendo na internet, o seu único espaço de construção e militância, e esses fatores acabam por afastá-las e até mesmo agravar seus transtornos em decorrência da forma como nos tratamos dentro desses espaços de construção de conhecimento.
Muitas dessas doenças, vale frisar, são decorrentes desses traumas e abusos emocionais, e acabam se agravando pelos conflitos dentro de espaços que deveriam ser de acolhimento e segurança para todas nós.
Uma das maiores barreiras que encontro dentro desses espaços de conhecimento e debate das tantas teorias feministas, é a hostilidade entre mulheres e o capacitismo que acontece em relação à essas mulheres que sofrem desses transtornos, e a banalização de seu sofrimento. E isso é algo grave, e que interfere e muito na proposta de construção desses ambientes, e tem um impacto profundo na vida dessas mulheres, e isso precisa ser urgentemente debatido.
Para falarmos mais claramente sobre o que é o capacitismo e no quanto isso entrava nosso processo de construção e militância, vou colocar aqui, uma definição da palavra para que seu significado dentro desse assunto, saúde mental, fique mais claro.

“Defino o capacitismo como a concepção presente no social que tende a pensar as pessoas com deficiência como não iguais, menos humanas, menos aptas ou não capazes para gerir a próprias vidas, sem autonomia, dependentes, desamparadas, assexuadas, condenadas a uma vida eternamente economicamente dependentes, não aceitáveis em suas imagens sociais, menos humanas.

São algumas características: há sempre uma boa dose de paternalismo, que tolera que os elementos dominantes de uma sociedade expressem profundo e sincera simpatia pelos membros com deficiência, enquanto, ao mesmo tempo, sustente-os numa acondicionamento de subordinação social e econômica.”

Trecho retirado do blog https://chegadecapacitismo.wordpress.com/2012/11/23/entenda-o-que-e-capacitismo/

Ampliamos esse termo para as doenças e transtornos mentais, que podem ou não, dependendo de sua gravidade, serem considerados um tipo de deficiência.

A dose de paternalismo e o fato das pessoas dentro desses ambientes, muitas vezes hostis, e muitas vezes a manutenção dessa subordinação (e muitas vezes digo no sentido intelectual, não somente social e econômico) acaba por agravar os transtornos e dificultar o acesso dessas mulheres aos espaços de construção.
Além do capacitismo, muitas vezes camuflado de empatia, vejo uma boa dose de banalização da depressão, bipolaridade, ansiedade (que são problemas mais frequentes de se encontrar dentro desses espaços), diminuindo esses transtornos à um simples problema que pode ser resolvido com chás, meditação e outras formas de terapia alternativa, que em nada colaboram para a saúde mental dessas mulheres.
Acredito que um dos primeiros passos para garantir que esses espaços sejam seguros é respeitar de fato a autonomia das mulheres na construção de cada um deles, respeitando sempre que cada mulher vai descobrir pra si, a melhor teoria para debate, dentro de um espaço seguro onde as discussões não acabem de forma hostil.
Permitir que as mulheres ingressem nesses espaços sem que haja hostilidade, já é uma maneira de proteger sua saúde mental.
Outra coisa que acho importante, porque vejo em grupos de ajuda entre mulheres conselhos como tomar chás e esse tipo de coisa, aconselhar sempre a buscar um profissional da psicologia ou psiquiatria, porque ignorar que esses transtornos são graves e precisam de tratamento adequado, é colocar a saúde mental e segurança dessas mulheres em risco.
Não podemos ignorar também, que o fator exposição e escracho público e perseguição na internet acabam por agravar e até mesmo levar a consequências mais extremas, os transtornos mentais. Acreditar que esse tipo de situação que acontece na internet, acaba na internet, é ignorar que isso terá consequências bastante reais pra essas mulheres.
O capacitismo se desconstrói com informação, responsabilidade e acima de tudo, empatia. A palavra sororidade não deveria ser apenas um chavão feminista, ela deveria ser colocada em prática por todas nós.

Para conferir mais sobre o blog chega de capacitismo, clique aqui https://chegadecapacitismo.wordpress.com

1376313_655148624516716_1470411352_n

50 tons de repúdio à violência doméstica e ao capacitismo

cinquenta-tons-de-cinza

Como mulher e feminista, me senti na obrigação de escrever uma crítica pontual em relação ao 50 tons de cinza, filme baseado no livro de mesmo nome.

E lendo as resenhas críticas e outros pontos de vista em relação ao filme, senti raiva. Porque em todo e qualquer texto a respeito, estavam carregados de machismo, capacitismo e culpabilização.
Mas antes de entrar nessas questões, já deixo claro que essa postagem é uma nota de repudio direta à resenha crítica escrita por Pablo Villaça e à carta de uma psiquiatra dizendo as razões para que você, leitora, não fosse ao cinema assistir a esse filme.
Vou ser direta. 50 tons de cinza não é um filme romântico, não se trata de uma história de amor. 50 tons de cinza não é tampouco, um filme sobre BDSM. É um filme sobre abuso psicológico, abuso físico. O perfil do personagem principal demonstra claramente um desequilíbrio.
Ele trata sua parceira como trata suas coisas. Ele precisa ter o controle de sua vida, saber cada um de seus passos e ter a certeza de que ela pertence apenas à ele.
Não difere muito do que vemos nos casos de violência doméstica por aí. Homem controlador, abusador, que tem surtos de raiva e bate na parceira. Situações semelhantes e sintomáticas de todos os casos de abuso que conheço. O que difere é que o cinema deu uma visão romantizada do que é o abuso, de forma que se passa quase que imperceptível aos olhos daquelas que não conseguem perceber que já viveram relações abusivas muitas vezes semelhantes.
E elas não são culpadas, porque nossa sociedade a todo tempo normaliza e padroniza esses comportamentos como sendo parte natural do instinto do homem, o que não é verdade.
Chamá-lo de monstro tampouco torna compatível com nossa realidade. Pelo contrário, dá a ele uma característica quase que caricata, afastando completamente daquilo que vemos diariamente. E bem sabemos que nós conhecemos alguma mulher que passou ou passa por situação de abuso psicológico e físico, portanto é sim, uma realidade bastante conhecida.
Tanto no texto de Pablo Villaça quanto na carta da psiquiatra, que andam circulando pela internet, a questão da saúde mental foram apontadas como fator predominante para que a Anastacia se envolvesse com Grey. E aí entra o que eu apontei como capacitismo e culpabilização.
O que é tido como uma pessoa emocionalmente estável? Quem, hoje em dia, é emocionalmente estável? E vou além na questão: Quem deveria ser realmente criticado? Ela que se envolveu por nitidamente ser uma jovem que se deslumbrou com a vida que ele leva e que difere muito da sua realidade, ou ele que é claramente um abusador psicológico?
Conheço muitas mulheres que sofreram abuso psicológico, e eu mesma já fui vítima, por um ex namorado. Eu estava apaixonada e não conseguia perceber que o que eu estava vivendo era terror psicológico, era abusivo e que eu não precisava me submeter a isso. Eu só fui perceber o que havia passado quando tive contato com o feminismo e vi relatos de muitas outras mulheres que haviam passado pela mesma situação que eu.
O abuso psicológico mina sua autoestima e sua capacidade de discernir os fatos.O meu abusador destruía minha autoestima me humilhando, fazendo com que eu desacreditasse nas minhas capacidades. E é a arma de muitos dos abusadores. Muitos deles usam gaslighting (tentativa de te fazer desacreditar o que está vivendo ou dizendo, de maneira a ter controle sobre você, minando seu psicológico) para controlar suas vítimas e fazer com que elas continuem se submetendo a esse tipo de abuso. O abusador psicológico te afasta das pessoas, pra que você não consiga sair dessa situação.
Dizer que uma mulher vivendo essa situação é psicológicamente estável é ser idiota. Mas acusar uma mulher que acaba entrando nessa situação de que seu psicológico é desestruturado e por isso ela se submeteu a isso é uma grande mentira.
Nenhuma mulher quer viver situações de abuso e não se submete a esse tipo de coisa porque quer. Os abusadores possuem artimanhas de tal maneira que não se consegue desvencilhar dessa situação, até que a vítima consiga perceber ou com a ajuda de alguém, ou sozinha (isso quando a vítima não morre) e saia disso.
Para fazer uma crítica contundente não é preciso usar de argumentos machistas ou capacitistas. Basta uma análise até que superficial da nossa sociedade que dita o que é do comportamento masculino e o que é do comportamento feminino, e os estímulos que cada um recebe desde o nascimento.
A mulher é ensinada desde a infância a se submeter a certos tipos de comportamento dentro de suas relações. A aguentar humilhações, comportamentos agressivos porque são tidos como normais. E é exatamente pela normalização dessa violência contra a mulher, que tantas de nós acaba se submetendo a relações violentas e abusivas.
Anastacia não era desequilibrada.

50 tons de cinza não é  tampouco sobre libertação sexual feminina. E mesmo quando falamos sobre libertação sexual feminina sempre tem um conceito machista embutido nisso que só favorece aos homens (e sempre relacionando com fetichização de lésbicas e bissexuais, sempre).
50 tons de cinza está longe de ser sobre o BDSM (e aí, deixo a problematização sobre certas práticas e fetiches pra uma outra hora).
50 tons de cinza se trata de, mais uma vez, a violência doméstica ser naturalizada.
Quando um homem controla a sua vida, com quem você se relaciona, o que você faz. Quando um homem sabe exatamente cada passo que você dá, é possessividade, e é abuso psicológico. Porque ele transforma a relação em um cárcere, e a mulher em uma presa que deve ser mantida sob sua custódia.
Quando vemos filmes como esse, naturalizando esse tipo de comportamento, é como se toda uma sociedade estivesse aplaudindo isso. E na verdade está, né. Porque esse tipo de coisa é normalizado há tempos, apenas tomou a proporção midiática.
A questão é que se fala muito desse filme, relacionando isso à libertação sexual feminina quando NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA com a libertação da mulher em relação à sexualidade, e menos ainda com sustentar o fetiche masculino. A libertação feminina independe do prazer do homem, o que o filme mostra claramente que é uma das únicas preocupações dele, satisfazer seus desejos.
Nossa sexualidade é ignorada. Nos ensinam a não nos tocar, a não nos descobrir porque é feio, vulgar, errado. E ai nos dizem que isso é uma forma de libertação sexual, de descobrir nossos fetiches.
Na verdade isso induz muita mulher a se relacionar dessa maneira porque acredita que talvez assim seu parceiro lhe dê prazer, porque relações abusivas e controladoras são normalizadas.
Tomem cuidado com esse discurso ”libertador”, nossa prisão é bem maior do que se vê.
Não construam seus gostos e subjetividades em algo que a mídia mostra o tempo todo, em algo que se constrói a partir do outro e não de você.

Para ler o texto original de Pablo Villaça: http://naofo.de/32tm

Para ler o texto da psiquiatra: http://naofo.de/32t3

Para entender sobre a normalização dos relacionamentos abusivos, leia esse texto complementar: http://womansplaining.com.br/2013/12/03/relacoes-abusivas-como-fomos-ensinadas-a-aceitar/

Amélia Autumn

Agosto, o mês da visibilidade lésbica

Este mês é o mês da visibilidade lésbica. Por conta disso, iniciamos uma série de publicações que irão ajudar a esclarecer e combater a lesbofobia, que mata cada dia mais.

 

Estamos no mês da visibilidade lésbica. E este mês só é colocado desta forma, porque há a necessidade de dar foco àquilo que é colocado à margem; àquilo que a sociedade finge não existir. Para entender melhor sobre este fenômeno, temos que pensar numa sociedade pré-noção e militância LGBT, devemos pensar numa sociedade que ainda não possuía categorias específicas para lidar com as sexualidades fora da norma heterossexual. O mundo pré-noção LGBT era um mundo estruturado de forma bem semelhante ao nosso: os homens possuíam o poder e a educação; as mulheres eram subjugadas e colocadas enquanto ferramenta de prazer e desfrute masculino (seja sexual, seja num universo material – de favores domésticos, por exemplo). O saber estava concentrado em mãos masculinas e foram estas mãos que escreveram textos teóricos e que tentavam provar empiricamente as funções, ações e reações do universo feminino. Neste mundo de mulheres sem voz, os homens analisavam o corpo feminino em um modelo adaptativo do seu próprio, acreditando que, aquilo que chamamos de ovários eram testículos e que o clitóris não passava de um micropênis subdesenvolvido. Desta forma, foi constituída a noção de um corpo feminino monstruoso; como um homem com defeito, que guardava seus órgãos reprodutores de forma interna por não terem tido força para se tornarem externos durante a gestação. Neste sentido, como este corpo anômalo poderia ser responsável pelo prazer de outrem? As narrativas sexuais eram falocêntricas a ponto de não considerar o corpo feminino como fundamental num ato sexual entre homem e mulher. A mulher só aparecia como parte fundamental na reprodução, mas, ainda assim, como menos fundamental e importante que o homem. Se, já no século XIX se acreditava que o orgasmo masculino era o responsável pelo prazer feminino (o gozo do homem fazia o corpo feminino convulsionar e experimentar o êxtase sexual), o que se poderia dizer sobre a possibilidade de relações afetivo-sexuais entre mulheres nesta época, ou antes dela? Durante a Inquisição moderna, os chamados “desvios sexuais e morais” também foram julgados pelo Santo Ofício. Neste momento, não havia a classificação “homossexual”, que conhecemos atualmente. O termo empregado era o de “sodomita” ou “somítigo”. A sodomia não era uma característica pessoal relativa às preferências sexuais e afetivas dos indivíduos, mas, a prática de um ato sexual chamado de “antinatural” por não ter função reprodutiva – era um crime, um pecado e um vício. Assim, a sodomia poderia ser masculina (sexo entre dois homens), feminina (entre duas mulheres) ou mista (sexo entre homem e mulher com penetração anal). Mas, tanto não se entendia sobre as funcionalidades do corpo feminino, que logo a sodomia feminina parou de ser perseguida por alguns tribunais inquisitoriais. Em 1591, houve a primeira Visitação do Santo Ofício ao Brasil. Nele, foram registrados alguns relatos de relações somítigas entre mulheres. O inquisidor responsável pela visitação preferiu ignorar, em sua maioria, as denúncias feitas, só abrindo processo contra aquelas mulheres que tinham envolvimento com diversas outras mulheres e que estes casos eram de conhecimento público. Este foi o caso de Felipa de Sousa. Felipa de Sousa é uma mulher-marco ao se falar sobre envolvimentos afetivo-sexuais entre mulheres no Brasil. Em seu processo inquisitorial, consta que “…a dita ré Felipa de Sousa pecar o horrendo e nefando crime de sodomia, pecado contra a natura, com muitas mulheres, assim casadas, como solteiras, por muitas vezes, em diversos tempos, sendo ela, ré, ora agente íncuba, ora paciente súcuba, consumando algumas vezes o dito pecado nefando com o cumprimento natural de semelhantes atos como se fossem naturais, ajuntando ela, com as outras mulheres cúmplices, seus vasos dianteiros. E, tendo suas deleitações abomináveis ela, com outras mulheres. E, consta a ré ser acostumada a namorar mulheres, requestando-as com cartas de amores e com recados e presentes. E as provocar ao dito abominável pecado e dar-lhes abraços e beijos com intenção torpe e desonesta e abominável. E gabar-se de tão horrendos pecados que cometia, nomeando as mulheres com quem os cometia, os quais horrendos pecados de sodomia cometeu, ajuntando-se com as outras mulheres sem haver algum instrumento penetrante. O que tudo fez com pouco temor de Deus, esquecida da salvação de sua alma…”. Felipa de Sousa foi degredada e chicoteada em praça pública. Pena leve, se considerarmos que a sodomia era passível de pena pela fogueira. Os historiadores especialistas no tema alegam que era justamente a falta de conhecimento acerca do corpo feminino que representou esta pena tão branda – que acabou sendo regra –, afinal, se as mulheres não eram capazes de causar prazer uma para a outra, a pena de morte seria uma punição desproporcional. Além disso, uma pena como esta seria a confirmação do que para uma sociedade misógina é impossível de se afirmar: que mulheres são capazes de se satisfazerem sexualmente sem a presença masculina, ou, ainda, sem instrumentos fálicos. Estas noções permanecem vivas. A invisibilidade lésbica, como conhecemos atualmente, se dá por esta mesma certeza sedimentada culturalmente nas sociedades ocidentais: não há sexo nem real prazer sexual sem falo. Neste sentido, tratam de forçar o envolvimento afetivo-sexual de lésbicas com homens heterossexuais; se argumenta que uma mulher só pode se declarar enquanto lésbica se já teve envolvimento sexual com homens, mas, se ela argumenta já ter tido estas relações, a classificam enquanto bissexual e colocam que ela não experimentou “homem de verdade”. Devemos, inclusive, destacar que este fenômeno não ocorre com homens homossexuais, isto porque há falo nestas relações e a cultura misógina não consegue duvidar da legitimidade do sexo que envolve pênis. A invisibilidade lésbica é um dado que ocorre em sociedades machistas e de ódio às mulheres: esta sociedade que naturaliza a norma heterossexual não consegue perceber a sexualidade feminina como não subserviente do prazer masculino. Aqui, apenas as mulheres lésbicas transgressoras que se caracterizam fortemente dentro de uma padronagem masculina conseguem ser percebidas – mas, assim como são vistas, são depreciadas e humilhadas pela regra geral da cultura hétero. As lésbicas consideradas “femininas” são fetichizadas e colocadas como objeto de cobiça dos homens que, para além de desejarem performar a “cura lésbica” por meio de seu falo irresistível, sonham com o ato sexual que envolve duas mulheres cobiçando o seu falo. As lésbicas, também por esta característica fetichizante atribuída pelos próprios homens e sedimentada pela indústria pornográfica, correm o risco do chamado “estupro corretivo”, que consiste no estupro “justificado” com o discurso de “cura lésbica”. Mais uma vez, o falo aparecendo com propriedades mágicas e curativas. A invisibilidade vem atrelada com uma série de violências, físicas, psicológicas e sexuais. Ela aparece como expressão máxima do ódio e da falta de desejo de entendimento das características sexuais femininas e de seu livre arbítrio sexual. Negam o direito da mulher à sexualidade lésbica porque negam a existência da mulher como ser independente das propriedades e vantagens que administram aos homens. A lesbiandade não pode existir no modelo patriarcal porque ela nega o homem como centro do mundo e coloca a mulher neste local de privilégio em relações afetivas e sexuais. A luta pela visibilidade é a luta pelo fim de explorações, de violências e da noção de que mulheres foram feitas para servir aos homens como eles bem entenderem. A luta pela visibilidade é a luta pela emancipação. Ela é importante porque, enquanto visíveis, podemos denunciar aquilo que nos machuca e defender nossos direitos. Visíveis, nós existimos.

Texto por J Lo Borges10373656_523538921085651_425333773149064903_n