Tag: cultura do estupro

50 tons de repúdio à violência doméstica e ao capacitismo

cinquenta-tons-de-cinza

Como mulher e feminista, me senti na obrigação de escrever uma crítica pontual em relação ao 50 tons de cinza, filme baseado no livro de mesmo nome.

E lendo as resenhas críticas e outros pontos de vista em relação ao filme, senti raiva. Porque em todo e qualquer texto a respeito, estavam carregados de machismo, capacitismo e culpabilização.
Mas antes de entrar nessas questões, já deixo claro que essa postagem é uma nota de repudio direta à resenha crítica escrita por Pablo Villaça e à carta de uma psiquiatra dizendo as razões para que você, leitora, não fosse ao cinema assistir a esse filme.
Vou ser direta. 50 tons de cinza não é um filme romântico, não se trata de uma história de amor. 50 tons de cinza não é tampouco, um filme sobre BDSM. É um filme sobre abuso psicológico, abuso físico. O perfil do personagem principal demonstra claramente um desequilíbrio.
Ele trata sua parceira como trata suas coisas. Ele precisa ter o controle de sua vida, saber cada um de seus passos e ter a certeza de que ela pertence apenas à ele.
Não difere muito do que vemos nos casos de violência doméstica por aí. Homem controlador, abusador, que tem surtos de raiva e bate na parceira. Situações semelhantes e sintomáticas de todos os casos de abuso que conheço. O que difere é que o cinema deu uma visão romantizada do que é o abuso, de forma que se passa quase que imperceptível aos olhos daquelas que não conseguem perceber que já viveram relações abusivas muitas vezes semelhantes.
E elas não são culpadas, porque nossa sociedade a todo tempo normaliza e padroniza esses comportamentos como sendo parte natural do instinto do homem, o que não é verdade.
Chamá-lo de monstro tampouco torna compatível com nossa realidade. Pelo contrário, dá a ele uma característica quase que caricata, afastando completamente daquilo que vemos diariamente. E bem sabemos que nós conhecemos alguma mulher que passou ou passa por situação de abuso psicológico e físico, portanto é sim, uma realidade bastante conhecida.
Tanto no texto de Pablo Villaça quanto na carta da psiquiatra, que andam circulando pela internet, a questão da saúde mental foram apontadas como fator predominante para que a Anastacia se envolvesse com Grey. E aí entra o que eu apontei como capacitismo e culpabilização.
O que é tido como uma pessoa emocionalmente estável? Quem, hoje em dia, é emocionalmente estável? E vou além na questão: Quem deveria ser realmente criticado? Ela que se envolveu por nitidamente ser uma jovem que se deslumbrou com a vida que ele leva e que difere muito da sua realidade, ou ele que é claramente um abusador psicológico?
Conheço muitas mulheres que sofreram abuso psicológico, e eu mesma já fui vítima, por um ex namorado. Eu estava apaixonada e não conseguia perceber que o que eu estava vivendo era terror psicológico, era abusivo e que eu não precisava me submeter a isso. Eu só fui perceber o que havia passado quando tive contato com o feminismo e vi relatos de muitas outras mulheres que haviam passado pela mesma situação que eu.
O abuso psicológico mina sua autoestima e sua capacidade de discernir os fatos.O meu abusador destruía minha autoestima me humilhando, fazendo com que eu desacreditasse nas minhas capacidades. E é a arma de muitos dos abusadores. Muitos deles usam gaslighting (tentativa de te fazer desacreditar o que está vivendo ou dizendo, de maneira a ter controle sobre você, minando seu psicológico) para controlar suas vítimas e fazer com que elas continuem se submetendo a esse tipo de abuso. O abusador psicológico te afasta das pessoas, pra que você não consiga sair dessa situação.
Dizer que uma mulher vivendo essa situação é psicológicamente estável é ser idiota. Mas acusar uma mulher que acaba entrando nessa situação de que seu psicológico é desestruturado e por isso ela se submeteu a isso é uma grande mentira.
Nenhuma mulher quer viver situações de abuso e não se submete a esse tipo de coisa porque quer. Os abusadores possuem artimanhas de tal maneira que não se consegue desvencilhar dessa situação, até que a vítima consiga perceber ou com a ajuda de alguém, ou sozinha (isso quando a vítima não morre) e saia disso.
Para fazer uma crítica contundente não é preciso usar de argumentos machistas ou capacitistas. Basta uma análise até que superficial da nossa sociedade que dita o que é do comportamento masculino e o que é do comportamento feminino, e os estímulos que cada um recebe desde o nascimento.
A mulher é ensinada desde a infância a se submeter a certos tipos de comportamento dentro de suas relações. A aguentar humilhações, comportamentos agressivos porque são tidos como normais. E é exatamente pela normalização dessa violência contra a mulher, que tantas de nós acaba se submetendo a relações violentas e abusivas.
Anastacia não era desequilibrada.

50 tons de cinza não é  tampouco sobre libertação sexual feminina. E mesmo quando falamos sobre libertação sexual feminina sempre tem um conceito machista embutido nisso que só favorece aos homens (e sempre relacionando com fetichização de lésbicas e bissexuais, sempre).
50 tons de cinza está longe de ser sobre o BDSM (e aí, deixo a problematização sobre certas práticas e fetiches pra uma outra hora).
50 tons de cinza se trata de, mais uma vez, a violência doméstica ser naturalizada.
Quando um homem controla a sua vida, com quem você se relaciona, o que você faz. Quando um homem sabe exatamente cada passo que você dá, é possessividade, e é abuso psicológico. Porque ele transforma a relação em um cárcere, e a mulher em uma presa que deve ser mantida sob sua custódia.
Quando vemos filmes como esse, naturalizando esse tipo de comportamento, é como se toda uma sociedade estivesse aplaudindo isso. E na verdade está, né. Porque esse tipo de coisa é normalizado há tempos, apenas tomou a proporção midiática.
A questão é que se fala muito desse filme, relacionando isso à libertação sexual feminina quando NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA com a libertação da mulher em relação à sexualidade, e menos ainda com sustentar o fetiche masculino. A libertação feminina independe do prazer do homem, o que o filme mostra claramente que é uma das únicas preocupações dele, satisfazer seus desejos.
Nossa sexualidade é ignorada. Nos ensinam a não nos tocar, a não nos descobrir porque é feio, vulgar, errado. E ai nos dizem que isso é uma forma de libertação sexual, de descobrir nossos fetiches.
Na verdade isso induz muita mulher a se relacionar dessa maneira porque acredita que talvez assim seu parceiro lhe dê prazer, porque relações abusivas e controladoras são normalizadas.
Tomem cuidado com esse discurso ”libertador”, nossa prisão é bem maior do que se vê.
Não construam seus gostos e subjetividades em algo que a mídia mostra o tempo todo, em algo que se constrói a partir do outro e não de você.

Para ler o texto original de Pablo Villaça: http://naofo.de/32tm

Para ler o texto da psiquiatra: http://naofo.de/32t3

Para entender sobre a normalização dos relacionamentos abusivos, leia esse texto complementar: http://womansplaining.com.br/2013/12/03/relacoes-abusivas-como-fomos-ensinadas-a-aceitar/

Amélia Autumn

TRIGGER WARNING: Cultura de estupro – Relato de um abuso.

Essa postagem se trata de um relato de abuso. O objetivo é trazer à tona a reflexão sobre a culpabilização da vítima. A questionar sobre a cultura de estupro que está presente. Pra quebrar com esses conceitos e começar a debater sobre o tema.
Aviso: Esse é um relato forte. Portanto, se você não está preparadx para ler algo forte como isso, aconselho a visitar nosso blog na semana que vem.
Amélia Autumn

 

Era o primeiro domingo de novembro de 2010, eu fui a um “churrálcool” (como gostam de chamar na minha cidade) com mais duas amigas minhas. Nesse mesmo dia eu participei de um festival, onde eu briguei com um amigo meu por ele dizer que eu devia parar de beber, “que não era coisa pra mulher”.

Chegando lá eu tomei uma dose de vodca misturada com meia lata de refrigerante. Tomei uma lata de cerveja. Tomei catuaba. Tomei vinho. Tomei tequila. A partir daí os relatos são de flashes meio confusos.

Lá pelas tantas da noite comecei a conversar com um garoto. Ele era da minha escola. Era amigo de uns amigos. Eu não lembro quem começou a conversa. Mas lembro de que depois de um tempo, nós estávamos sentados em duas cadeiras separadas, nos beijando. Lembro-me de uma luz bem na minha cara (era um flash de câmera fotográfica). Lembro-me de ser puxada (por um amigo) pra ficar em pé. Lembro-me de ser empurrada pra dentro da sauna da casa em que acontecia o churrasco (pelo mesmo amigo). Lembro-me do barulho do interruptor que apagou a luz.

E aí eu não me lembro de mais nada.

Lembro que, algum tempo depois, minha amiga abriu a porta da sauna e acendeu a luz, me chamando pra que a gente pudesse ir embora. Lembro da cara de horror dela. Lembro de olhar pra direção em que ela olhava. Lembro de ver sangue. Muito sangue contrastando com a parede de azulejo branco. Eu não estava menstruada. Eu tinha sido violentada. Vi mais gente entrando na sauna e saindo correndo, rindo. Senti minhas bochechas e meu colo queimarem com a vergonha e a humilhação. Minha amiga lavou logo o sangue da parede e nós fomos pra casa. Fui dormir logo pra não ter que lidar com a vergonha do acontecido.

No dia seguinte acordei sem vontade de levantar. Minha irmã, que já tinha ficado sabendo do acontecido, já tinha bolado um sermão que envolvia bebida, sauna, garoto desconhecido. Ela não queria que eu tivesse essa fama.

E então eu comecei a me arrepender. Não de ter confiado o suficiente pra entrar em uma sauna com um amigo dos meus amigos. Me arrependi por não ter me valorizado. Por ter bebido. E o filme da discussão com meu amigo começou a passar na minha cabeça e eu pensei que, sim, ele tinha razão: beber não é coisa de mulher. A mulher tem que ficar sempre no controle.

Eu convivi com esse peso por dois anos, me culpando por ter bebido demais. Por ter usado um short curto demais. Por me dar valor de menos. A ideia de que, talvez, aquela proximidade indevida e violenta que me arrancou sangue poderia ser categorizada como estupro passou pela minha cabeça. Mas eu nunca persisti com essa ideia. Porque eu aceitei. Eu bebi, usei um short curto, uma blusa decotada, beijei aquele cara, aceitei entrar na sauna. Ele não tinha culpa. Eu tinha.

E em 2012 eu entrei em contato com as ideias e os ideais feministas. Passei a entender, entre muitas outras coisas, o conceito de cultura do estupro. A cultura do estupro naturaliza qualquer contato indevido e violento. A cultura do estupro, que faz parte da cultura machista na qual estamos inseridxs, naturalizou o contato violento e indevido que eu sofri. A cultura do estupro naturalizou o sangue naquelas paredes. A cultura do estupro naturalizou o comportamento do meu agressor, os xingamentos que eu recebi, o repúdio que eu sofri, a marginalização que me foi imposta, a perseguição que acontece até hoje. A cultura do estupro tornou tudo que era pra ser absurdo em natural.

E essa cultura é perpetuada quando “aquela menina com roupa curta estava pedindo pra ser estuprada”. Quando “aquela menina devia saber que beber demais só pode dar em uma coisa”. Quando “ela estava andando sozinha por uma rua escura”. A cultura do estupro é perpetuada quando casos de estupro são naturalizados e/ou relativizados. A cultura do estupro se mostra presente quando boletins de ocorrência contra agressores sexuais é motivo de risada em delegacias mundo afora.

Valentina Altimari