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O problema não são as mulheres, querido nerd. É você.

Acho que todo mundo que tem redes sociais, hoje em dia, já viu aquele amigo nerd/geek típico reclamando que ele trata as mulheres bem mas o que elas curtem mesmo são os cafajestes, ou que ele bajulou tanto uma garota específica mas ela o deixou na friendzone, ou qualquer coisa do gênero. Aposto que tem muitas meninas que, como eu, já viram seus ex postando imagens tipo  essa e, por um momento, por um milésimo de segundo, se sentiram como pessoas cruéis que deram o fora naquele suposto cara perfeito.

Mas foi só um milésimo de segundo mesmo, porque nós não somos obrigadas a continuar com alguém só porque essa pessoa nos trata bem. Nós não somos obrigadas a ficar com alguém só porque essa pessoa é legal com a gente (legal entre aspas, porque está cheio das segundas intenções). E não, não merecemos ser rotuladas como “vadias” só porque supostamente te deixamos nessa idiotice que você chama de friendzone.

Estou aqui para dizer que estamos cansadas dessa baboseira toda.

Você, nerd, não é melhor que ninguém por viver nesse mundinho de cultura pop.

Eu não vou definir aqui o que é um nerd (ou geek, seja lá como você prefere chamar). Honestamente, pra mim isso independe de quantos jogos que você já zerou, do número de HQs que você acompanha mensalmente ou da quantidade de Pokémons que você sabe o nome. Mas eu acho que todo mundo consegue imaginar um nerd desses de hoje em dia.

Pois bem, eu me considero uma nerd. Gosto muito de cultura pop, prefiro ação à comédia romântica e leio quadrinhos com frequência. Mas, apesar de me considerar nerd, eu odeio  a comunidade nerd.

Por quê? Porque os nerds-padrão são extremamente sexistas, machistas, elitistas e preconceituosos. E eu abomino isso.

Ripley mandando a real: estou feliz em desapontá-lo.
Ripley mandando a real: estou feliz em desapontá-lo.

Os nerds, em geral, se consideram “intelectualmente superiores” a qualquer outro mortal da face da Terra. Como o J. M. Trevisan disse nesse texto  aqui , o nerd-padrão vê o seu mundinho “como um reino que ele conquistou a duras penas e ao custo de muitos pescotapas e que é dele”. Esse mundo particular criado pelo nerd-padrão pode ser resultado de um processo de “isolamento”, no qual o nerd se vê como “vítima” da friendzone e das “vadias” que não ficam com ele, mas sim com os “cafajestes”, que são os garotos que conseguem sair e ficar e beijar as garotas do mundo.

Esse mundo cheio de relações deturpadas afeta a cabeça desse ser que, teoricamente, é “intelectualmente superior”; e, dessa forma, eles  não admitem que as garotas que os rejeitam tenham “acesso” ao conteúdo de seu reino particular , afinal, foi ele que se estrepou todo para chegar até ali, certo?

Com isso, todas essas “vadias” que adentram no mundo dos jogos eletrônicos, RPG, quadrinhos, livros e filmes de cultura pop são altamente hostilizadas pelos atuais habitantes desse lugar. Esses garotos que, provavelmente, já foram alvo de bullying na escola trocam o papel de vítima para o de agressor,  ameaçando de estupro mulheres que se interessam por RPG  e  usando ofensas misóginas com aquelas que gostam de jogos online , por exemplo.

Mas é claro que o problema não acaba aí. As garotas são “vadias” porque entram em um mundo que, teoricamente, não as pertence. Mas não é só por isso…

Friendzone MATA!

cala a boca

Uma das melhores definições de friendzone que eu achei foi essa:

O conceito é simples, o cara (geralmente o cara) gosta muito de uma menina, mas ela não consegue ver o quanto ele é boa praça e o coloca na TERRÍVEL zona da amizade, onde ele é obrigado a não ficar com ela enquanto assiste um monte de caras não tão legais quanto ele tendo a chance. Esse é um problema que aflige praticamente todos os “caras legais” do mundo, porque mulher só dá valor pra babaca pegador.

Eu acreditava muito mais em friendzone no passado, mas tudo isso mudou quando eu fui colocada no papel que eu nunca tinha ficado: o de  friendzoneador  (se é que esse termo existe). Depois de uma série de circunstâncias, lá estava eu sendo bombardeada indiretamente por imagens tipo  aquela  que eu coloquei no começo do post, de um cara que queria muito continuar comigo, mas que simplesmente não rolava mais. E eu percebi que essa “pressão” indireta de ter que ficar com alguém só porque essa pessoa te trata bem é horrorosa.

Ela disse que só queria que fossemos amigos… que vadia.
Ela disse que só queria que fossemos amigos… que vadia.

Primeiramente:  quem foi que disse que você é um cara legal?  Sua mãe? Você mesmo? Seus amiguinhos que são iguais a você? Segundamente:  ninguém é obrigado a ficar com alguém só porque essa pessoa é fofa , ou te trata como uma princesa/príncipe. Se você não sente atração pela pessoa, não há nada que você possa fazer, por mais que o outro envolvido na história mande indiretinhas sobre o fato de você “pisar” nele. Nerdzinhos, vocês tem que aceitar que as mulheres  tem vontades , e ela não é nenhum demônio ou nenhuma criatura imbecil caso a vontade dela  não seja você.  E   caro  friendzoneado , não há nada que  você  possa fazer em relação à essas vontades! Se outra pessoa não te quer, siga o conselho da tia Elsa e  let it go ! Ou siga o conselho do tio Jimmy, do Matanza:

Se a mulher que voce quer, não te quer mais
E você só foi perceber isso tarde demais
Tudo bem, pois não faz a menor diferença no fim

Além disso, se você se aproximou de uma garota e foi legal com ela com o único propósito de tentar alguma coisa além disso,  você é um babaca .

E se vocês acham que eu estou exagerando sobre dizer que friendzone mata, você já ouviu falar sobre um cara chamado Elliot Rodger? Ele parecia um cara legal. Escreveu um  manifesto  até. Olha uma parte dele:

Vocês meninas nunca se sentiram atraídas por mim. Eu não sei por que vocês meninas não se sentem atraídas por mim, mas vou punir todas vocês por isso.

Elliot Rodger era só mais um cara que acreditava na friendzone e que, por causa dela, cometeu o  Massacre de Isla Vista , que deixou 7 mortos (incluindo o atirador) e 13 feridos. Por causa dessa rejeição que era, teoricamente, culpa das mulheres, ele se achou no direito de matar e ferir pessoas.

Por favor,  parem com essa ladainha de friendzone . Se as garotas não te querem, talvez o problema não seja elas, e sim você. Talvez todo esse seu preconceito nerd-padrão-ninguém-entra-no-meu-mundinho seja o culpado. Podem existir um milhão de motivos, mas as mulheres serem “vadias” porque “só ficam com cafajestes” não é um deles.


PS: assumo que esse texto não saiu tão bom assim. Ele é mais um desabafo do que qualquer coisa, então saiu com mais emoção do que eu previa. Peço desculpas por isso.

Usei os seguintes textos pra me ajudar nesse artigo:

Relações abusivas: Como fomos ensinadas a aceitar

Esse texto vem para abrir uma discussão sobre como somos ensinadas a viver em relacionamentos abusivos, em como normalizam essas situações e nos dizem que não precisamos nos preocupar, que é normal que o cara seja assim.

Fica aqui um alerta para você que vive algo semelhante, para que não se permita ficar amarrada. Denuncie, recorra à pessoas que possam te ajudar a lidar com a situação e fugir dela.

Espero que isso sirva de alerta e possa ajudar muitas mulheres.

Amélia Autumn

Imagem

Aprendi que o homem ser ciumento, possessivo era sinal de que ele me amava. E aprendi a aceitar esse comportamento. Aprendi que quando um homem aumentava seu tom de voz comigo, eu deveria me calar e abaixar minha cabeça.

Aprendi que se o cara levanta a mão pra mim em sinal de uma possível/provável agressão eu provoquei isso. E devo aceitar calada o fato de que apanhei.
Aprendi que é normal o cara escolher a roupa que eu visto, porque é proteção, é carinho, é cuidado.
Essa idéia de amor romântico me ensinou a ser submissa, a me calar diante de uma grosseria, de uma agressão, porque afinal de contas o homem é assim mesmo, testosterona demais faz isso, homem de verdade é homem que manda na mulher.
Cresci vendo todos os dias que mulheres deveriam cuidar da casa, dos filhos, e que os homens eram os responsáveis por prover o sustento da família. Sim, eu aprendi isso. Mas nunca aceitei.
Durante muito tempo fui vivendo um relacionamento abusivo atrás do outro, fui vendo amigas minhas serem agredidas por seus namorados ciumentos e possessivos, e aprendi que eu não deveria fazer nada porque em briga de marido e mulher ninguém mete a colher.
Mas o feminismo me ensinou que eu não preciso aceitar nada disso. Que esse tipo de comportamento não é normal e que isso é característica de um relacionamento abusivo. Nem todas as minhas amigas tiveram a mesma sorte que eu, de perceber que vivia um cárcere, que o meu relacionamento não era normal ou saudável.
Lembro-me de ter discussões horríveis com meu namorado na época por skype, quando dizia que ia sair com alguma amiga. Eu era xingada de vagabunda pra baixo. Eu engolia isso, chorava, e tinha medo de perdê-lo porque afinal de contas se ele tem ciúme é porque me ama, e que bom que alguém me ama não é mesmo?
Eu cansei de ver pessoas culpabilizando mulheres que sofrem agressão constante do seu companheiro, porque elas não denunciam, porque elas não terminam, porque elas não tomam uma atitude.
É muito fácil falar quando você não sofre uma agressão muito mais silenciosa e danosa, que é a psicológica. Assim como eu, muitas mulheres cresceram aprendendo que esse tipo de coisa é normal e aceitável, e que a gente deve relevar porque homem é assim mesmo e relacionamentos são complicados.
Mulheres que sofrem agressão são coagidas, são pressionadas por seu companheiro, são ensinadas a não delatarem os maus tratos porque se elas apanham, é porque mereceram. Diariamente reproduzem esse discurso, e diariamente mulheres morrem porque nem mesmo a lei criada para protegê-las é eficaz.
Chega de silenciarmos agressões, chega de culpabilização da vítima, chega de discursos em que se ensinam mulheres a calar-se diante da agressão ao invés de punir os homens por agredi-las.
Mulheres agredidas muitas vezes permanecem nessa situação por não terem refúgio, apoio, estrutura psicológica e financeira, porque uma lei que deveria proteger a vítima acaba passando a mão na cabeça do agressor.
Vamos parar de reproduzir esses discursos opressores, e vamos nos concentrar no que realmente importa: Vamos ensinar nossas mulheres a se protegerem, a reconhecerem relacionamentos abusivos e possíveis agressores, mas principalmente, ENSINAR AOS HOMENS A NÃO AGREDIR FÍSICA E PSICOLOGICAMENTE, A NÃO COAGIR, A NÃO AMEAÇAR, A NÃO OBJETIFICAR, A NÃO EXPLORAR.

Amélia Autumn

Pornografia: Uma discussão

A pornografia é um tema bastante delicado de ser discutido nos meios feministas. Por que? Porque algumas correntes acham que não há problema na pornografia, e algumas outras correntes lutam contra.

Pesquisando sobre o assunto pude perceber que existe meio que um consenso geral dos motivos que levaram ao surgimento da pornografia e para quais finalidades.

A pornografia foi criada inicialmente para gerar prazer e levar/induzir à masturbação ou até mesmo ao ato sexual. O alvo? Os homens, principais produtores e consumidores dessa indústria que gera lucros altíssimos baseados na exploração da imagem e da sexualidade da mulher.

A pornografia objetifica o corpo da mulher, o explorando até a exaustão. Alimenta também uma indústria de tráfico de mulheres, que poucas pessoas sabem.
Dentro da pornografia existe um falso conceito de escolha. Contrato assinado você não pode dizer ‘isso eu não faço, aquilo eu não faço’, as industrias desse tipo de mercado se alimentam disso.
A pornografia molda o comportamento sexual. Instiga a violência e a falsa dominação da mulher, nada mais é do que a submissão velada para alimentar um fetiche masculino.

Tem também uma outra questão muito importante que é a imposição de um modelo de corpo ideal para a mulher. Ele molda conceitos e corpos e isso não é legal, porque isso mexe diretamente com a segurança sobre sua performance sexual, sobre a sua sexualidade, sobre como ela lida com o seu corpo.

Sei que esse é um assunto bastante polêmico e que terá uma grande repercussão talvez, mas o propósito dessa postagem é trazer essa discussão à tona e apresentar alguns argumentos bastante consistentes do porque a pornografia é nociva. Ao procurar leituras não-feministas  sobre o assunto pude ver o posicionamento de muitos autores de artigos científicos sobre a fetichização da mulher e a indústria pornográfica de que há uma exploração da imagem do corpo da mulher para trazer prazer ao homem.

Existem dados que comprovam que a pornografia alimenta uma indústria do tráfico de mulheres, da prostituição, das drogas…É uma indústria feita de falsas escolhas. É uma ilusão achar que quem está ali é uma Sasha Grey na vida. Nem todas escolheram estar ali porque gostam do que fazem e lidam bem com sua sexualidade.

Em um texto que li de psicologia, um estudo feito com homens em que um video comum e um video erótico eram exibidos, na parte do vídeo erótico as partes do cérebro que trabalhavam era a da motivação e da recompensa.

Fazendo uma análise social sobre a pornografia, é fato que isso influencia diretamente na sexualidade da mulher e na forma como ela lida com o seu corpo, o que eu pretendo descobrir com meu projeto de pesquisa é o quanto isso afeta e até onde  isso vai.

Me deparei com um texto que fala sobre um novo tipo de pornografia: A pornografia feminista. Eu sempre me questionei até que ponto essa nova forma de pornografia não seria nada mais nada menos do que o reflexo de uma indústria machista. Nesse tipo de produção, entra na discussão a questão do empoderamento da mulher, e existem algumas regras para a pornografia feminista: Ao menos uma mulher deve estar envolvida no processo de produção, a mulher tem que ser a figura principal e o prazer feminino é o mais importante. Por isso, um formato diferenciado dessa pornografia foi feito visando atender à sexualidade da mulher. A explorar esse prazer da mulher com seu próprio corpo e com x seu/sua parceirx.

Vou deixar linkado aqui o artigo que trata dessa questão da pornografia feminista e gostaria de levantar uma questão aqui: A pornografia é nociva?

Neste link você poderá fazer  o download do PDF. São 12 páginas de uma discussão bastante interessante e que leva à reflexão. Se alguém tiver interesse em ler a minha revisão bibliográfica sobre o assunto, posso passar também.

http://www.uff.br/ciberlegenda/ojs/index.php/revista/article/view/507

Espero a manifestação de vocês sobre esse assunto tão complexo.

Amélia Autumn

Caso Fran e a falta de empatia

Quando vi a reportagem sobre o caso Fran pensei comigo “Mais uma que foi difamada e que ficará marcada por causa do namorado”.
Esses casos são muito comuns, quase que semanalmente é alguma coisa do tipo aparecendo na mídia. Sempre as mulheres são expostas por seus companheiros em momentos muito íntimos.
O que acontece é que normalmente filmar ou fotografar o ato sexual, ou até mesmo enviar fotos sensuais para o parceiro é um fetiche bastante comum entre as pessoas. Isso acontece porque existe um voto de confidencialidade e de confiança entre as partes.
Mas sempre essa confiança acaba sendo quebrada, ou a vida do casal é invadida.
Essa moça confiava que a intimidade ficaria apenas entre os dois, o que não aconteceu. E o que nós vemos logo em seguida é isso, linchamento da moça. A vítima deixa de ser vítima e é culpada. E os comentários de linchamento pioram mais quando é um caso de traição. A mulher é chamada de vagabunda pra baixo.
Eu falo que isso é bem semelhante à cultura de estupro que existe na nossa sociedade arcaica, falsa moralista e machista.
É difícil ver empatia em casos como esse, principalmente se você se der o trabalho de ler os comentários na matéria. É disso pra baixo, é horrível, é de cortar o coração.
Essa moça teve sua vida invadida, teve sua vida transformada numa piada eterna, porque o que cai na internet, dificilmente se apaga. Uma vez online, as pessoas salvam, copiam, reproduzem de maneira infinita. Essa moça teve a vida dela estragada para sempre. E tudo por confiar no parceiro. Pobre moça.
O que ninguém percebe é que cyberbullying tem uma dimensão absurda. Causa um impacto psicológico muito forte e destrói a vida da vitima e de todos aqueles que a rodeiam. Fiquei sabendo que nem a filha dela foi poupada nessa história toda.
As pessoas se colocam no lugar de juízes e a condenam à sentença da humilhação pública sem fim. A condenam à uma depressão que pode levar muitas vezes, ao suicídio.
O que me surpreende ver é a hipocrisia das pessoas. Conheço muitos casais que tem o hábito de tirar fotos sensuais para o parceiro. Já conheci várias vítimas de cyberbullying que tiveram videos de sexo divulgados na internet.
A vítima deixa de ser vítima. A vítima passa a ser culpada de uma coisa que foi feita CONTRA ELA.
O que me entristece é saber que essa moça teve toda a sua vida mudada, e nunca mais terá paz.
O que me entristece é que as pessoas raramente se colocam no lugar do outro, raramente praticam a empatia.
O que me espanta é perceber como o ser humano consegue ser maldoso, cruel.
Existe um filme chamado Disconnet que eu recomendo assistirem, trata da questão do cyberbullying em diferentes esferas, e mostra a consequência cruel disso na vida e na estrutura das pessoas.
Praticar a empatia não dói e não custa nada. E te torna uma pessoa digna, melhor.
Linchar, julgar, rechaçar é muito fácil. Estender a mão em apoio à vítima, praticar a empatia? Ah…Isso é difícil, e raro.
Fran, quero dizer que mesmo não te conhecendo, estou te desejando muita força nesse momento. E desejo que a justiça seja realmente feita e esse homem pague pela humilhação e sofrimento causados à você.

Quando nós confiamos nx nossx parceirx, todas somos Fran.
Força Fran, o Womansplaining está ao seu lado.

Amélia Autumn.Imagem

Machismo nos games – Nós somos o que jogamos?

Recentemente tive meu feminismo questionado por ser jogadora de GTA. Antes de mais nada, gostaria de contextualizar o jogo. Existem vários GTAs e cada um conta a história do protagonista dentro do seu contexto. No San Andreas, fala de uma cidade separada por gangues que dominam determinadas áreas e o jogo de poder envolvendo essas gangues. No GTA IV, que é o jogo que estou jogando no momento, conta a história de um imigrante que chega nos Estados Unidos e começa a ganhar a vida como assassino de aluguel. No meio disso, existem histórias machistas, racistas, homofóbicas, termos inapropriados, violência, uso de drogas. 
Não é um jogo leve, não é um jogo politicamente correto. Mas também em momento algum faz alusão ou apologia à esse tipo de comportamento. Quem acompanha a história e entende o funcionamento do jogo, compreende que o que acontece é um retrato dos guetos, de determinadas sociedades suburbanas americanas. Os desenvolvedores, antes de lançarem o GTA IV, fizeram uma longa pesquisa sobre os comportamentos, gírias e “vida nas ruas” no jogo. A linguagem é pesada, a abordagem é agressiva, mas é um jogo relato. Você pode sim querer não colaborar com isso, você pode sim se abster de ter contato com esse tipo de cenário, mas considerar uma colega como “feminista demagoga” por jogar um jogo que retrata isso, seria correto?
Antes de mais nada, vou explicar a razão pela qual me interesso por esse jogo especificamente. A jogabilidade dele é incrível. Os gráficos são incríveis. As possibilidades de relações, de interações dentro do jogo, o mapa, enfim, é um jogo completo. E a história é interessante. Se envolve violência contra mulher e objetificação, é porque mostra um contexto real e cotidiano. Não são situações gratuitas inexistentes criadas exclusivamente para aquele jogo, são diálogos e contextos apropriados de uma história que permeia determinado grupo. Não estou dizendo, em hipótese alguma, que concordo e que devemos nos calar e deixar que isso seja perpetuado, mas questionar a militância de uma pessoa por essa razão é como questionar por ler Bukowski ou Pedro Juan Gutiérrez, que também viviam num contexto específico e retratavam uma realidade que viviam diariamente. É como insinuar que crianças que jogam jogos com tiros consequentemente vão se tornar assassinos.
Existem muitos games machistas. A indústria de jogos é feita com foco masculino, o maior consumidor de games é o público masculino e os games, na sua maioria, têm uma abordagem machista. É muito comum ver jogos onde mulheres são objetos. Jogos onde as personagens masculinas usam armaduras protetoras e as femininas usam micro biquínis (que dentro de uma lógica não faz sentido, que proteção um biquíni pode dar?). E aí eu me pergunto, onde reside o problema maior: em um jogo como GTA, que retrata uma abordagem direta de um contexto social, ou um jogo como World of Warcraft (que eu jogo também, diga-se de passagem) que coloca as personagens femininas usando roupas minúsculas em contraponto às masculinas? E o que fazer a respeito disso? Podemos sim boicotar ambos, e nos privar de jogar algo com uma história surpreendente e uma jogabilidade incrível, o que para quem é fã de jogos sabe o quanto é importante. 
Acredito que a militância nunca deve parar. Em todos os contextos em que estamos inseridas, devemos nos questionar e nos perguntar se estamos colaborando com a cultura e perpetuação do machismo. Mas também me pergunto qual a melhor solução para algo tão arraigado, e como resolver de uma forma mais direta. E principalmente, acusar as colegas e questionar o seu ativismo, é algo muito grave. Sororidade é uma palavra que não deve sair de nosso vocabulário.

Katrina Gordon