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Gordofobia: Não é uma questão de saúde

Big Fat Revolution

Pra começar a falar de gordofobia, é necessário alguns esclarecimentos a respeito do conceito da palavra “gordo”. Gordo, segundo algumas fontes, vem da palavra latina “gurdu”, que quer dizer lento, estúpido, pouco inteligente, “grosseiro”. Atualmente, a palavra serve para definir pessoas que tem muita gordura (segundo a definição do dicionário Michaelis). O principal problema da gordofobia começa justamente aí; o que é “ter muita gordura”? Muita gordura com relação a quê? A quem?
Acredito que o corpo gordo é uma condição social no caminho de se tornar um discurso ideológico. Descontruir a gordofobia – que é o objetivo inicial desse texto – significa tirar o corpo gordo da sua condição socialmente imposta de “mazela” e transformá-lo em identidade.
A gordofobia é, como todas as fobias, uma coleção de pensamentos pré-concebidos, geralmente prejudiciais, aos quais são submetidas as pessoas pertencentes a determinado grupo que partilham algumas características em comum. Como todo preconceito, ela se apóia em algumas falácias argumentativas pra existir. O que quero tentar fazer aqui é apontar cada uma dessas falácias e tentar desmascarar o que há por tras delas.

Numeradas a seguir, elas são:
1. A gordofobia médica: “Mas o problema não é estética, o problema é a saúde, todas as pessoas devem se sentir bem desde que estejam saudáveis! Obesidade não é saudável e causa muitos problemas de saúde, assim como anorexia. Ninguém deveria gostar de ser gordo! Gordura é uma questão de saúde pública”.

Pessoas gordas são geralmente consideradas culpadas da sua situação, julgadas como criminosos sem remorso algum. Essa frase vem cheia de outras concepções infundadas como: “uma pessoa só é gorda porque come demais e não se exercita”, ou “gordura é uma sentença de morte”. As falhas nessa argumentação são infinitas. Primeiro porque o fato de uma pessoa ser gorda não torna a sua saúde questão de domínio público. Além disso, os fatores que determinam o biotipo de alguém vêm de muito antes do seu nascimento, envolvem metabolismo, predisposição genética, etnia e muitas outras questões. Sobre gordura ser associada a morte, é claramente uma hipérbole. Corpos diferentes reagem de maneiras diferentes a estímulos externos como tempo e ambiente. Ser gordx não quer dizer que você vai morrer mais rápido que uma pessoa magra. Quer dizer apenas que o seu corpo é diferente e que os padrões que se aplicam a um outro tipo físico não são os mesmos que se aplicam a você.
Essa é atualmente a falácia mais difundida e tem muita relação com a noção ingênua de que discursos médicos/científicos são isentos de ideologia. Para entendê-la mais claramente, voltemos um pouco uns 200 anos no tempo, na época em que o discurso médico defendia a superioridade genética das etnias brancas sobre as não brancas. Ou 150 anos atrás, quando a mulher que tinha desejos sexuais e que era descontente com seu cárcere doméstico era considerada portadora de disturbios mentais. Ou 30 anos atrás, quando a AIDS era considerada uma doença exclusiva da homossexualidade.
Enfim, os exemplos são eternos. O discurso médico NUNCA é neutro, e na maioria dos casos históricos serve justamente para a manutenção do status quo. Com isso não quero dizer que se deva rejeitar todas as recomendações médicas, muito pelo contrário. Simplesmente não se deve cair na inocência de que eles são guiados apenas pelo bem comum.
(duas observações: embora saúde seja algo extremamente desejável, ninguém deve ser condenado, segregado e julgado caso tenha algum problema. Saúde mental também é saúde. E ser gorda também não impede que você se preocupe com o seu bem estar, se assim desejar. Há inúmeros institutos apoiando a saúde em qualquer tipo físico. Se você sente que tem algum problema, procure um médico de mente aberta e sem preconceitos. Grupos de body activism também podem ajudar bastante nessa situação).

2. A gordofobia do desejo: “Pessoas gordas não tem auto-estima, não são desejadas por ninguém e não tem vida sexual ativa”

Antes de tudo quero deixar uma coisa bem clara: O SEU VALOR NÃO É DETERMINADO SEGUNDO OS DESEJOS E VALORES ALHEIOS. Eu não posso frisar suficientemente a importância dessa frase.
Auto-estima é, de fato, um trabalho diário inesgotável. Ocasionalmente pode ser um processo complicado, mas isso porque pessoas gordas enfrentam tanto preconceito, tanto julgamento e tantas ofensas que as vezes algumas podem sentir extrema dificuldade em desenvolvê-la. E mesmo grupos que tentam lutar pela autonomia do corpo as vezes mais atrapalham que ajudam. Um exemplo disso é o famoso “aceitar o próprio corpo”. Implicitamente, essa frase está dizendo que você deve “se conformar” com o corpo que tem já que não pode ter outro. Não não não não. Errado. A verdadeira libertação do corpo vem do amor incondicional a si mesma, não da mera aceitação dele.
Sobre o corpo gordo e desejo sexual: gente, esqueçam todas – eu disse TODAS – as convenções e clichês que vocês ouviram a respeito. A experiência sexual em um corpo gordo é tão única e mágica quanto em qualquer outro corpo. Assim como as pessoas magras, gordxs não manifestam desejo “apesar do seu corpo”. Elas o manifestam através desse corpo, através de todos os poros, todas as dobras, todas as estrias tudo o que existe de belo e magnífico nele. Ser gordx não impede a sua vida sexual, não tira o seu desejo e, principalmente, não te obriga a aceitar qualquer merda vinda de imbecis.

3: A gordofobia da culpa: “Pessoas gordas não tem disposição pra nada e não tem força de vontade”.

Isso é tão absurdo que nem vale a pena refutar, mas vamos lá. Pessoas gordas não sedentárias são tão saudáveis quando pessoas magras não sedentárias. A respeito de gordura e dispodição, veja o primeiro tópico. Além disso, há inúmeros estudos, matérias e reportagens esclarecendo a questão, uma rápida pesquisa no Google por palavras chaves como “healthy and overweight” já prova o meu ponto. Sobre a força de vontade: bom, você pode dizer que nós, pessoas gordxs, temos muita força de vontade só pelo fato de que ainda não arrancamos a cabeça de quem fala tamanha bobagem. Além disso, a maioria de nós passou a vida inteira indo de médico a médico, experimentando todos os tipos possíveis de remédios, dietas e reeducações, aprendemos a passar fome, algumxs de nós até desenvolveram bulimia, exercitamos o nosso corpo até os limites do possível e sobrevivemos. O que nós mais temos é força de vontade.

4: A gordofobia social: “Nada fica bom em uma pessoa gorda, não existem roupas bonitas e elas não podem usar salto”.

Sim, infelizmente é muito difícil achar roupas em tamanhos maiores. E isso é culpa da indústria da moda, que impõe padrões como se fosse a dona do mundo. Felizmente isso está mudando. As lojas têm percebido que quase a totalidade das mulheres são classificadas como “gordas”, e o chamado mercado “plus size” (termo que eu não gosto muito), ou seja, tamanhos a partir do 46, está bem mais presente em lojas populares e de departamento. No Brasil essa tendência ainda está começando, mas no exterior ela já existe faz alguns anos e isso quase não é mais um problema. Sobre não poder usar salto, honestamente, isso é tão idiota que eu nem sei o que falar a respeito. O sapato de salto merecia um texto só pra ele, mas por hora basta dizer que, usado em excesso, não faz bem pra musculatura de ninguém. Isso, obviamente, não quer dizer que pessoas gordas não possam usá-los. Aliás, não quer dizer que pessoas de quaisquer biotipos não possam ou não devam usá-los.

5: A gordofobia do outro: “Mas eles não estão falando de mim, estão falando daquelas beeeeeeeem gordas”

Não, eles estão falando de você sim. Talvez a falta de uma mobilização no ativismo gordo seja o principal problema que enfrentamos, justamente por não saber reconhecer que as ofensas que são destinadas à nossas irmãs também nos atingem. Quando alguém faz um comentário gordofóbico, não está simplesmente humilhando uma pessoa, está tentando destruir todo um discurso, todo um grupo, um biotipo. Ofensas de cunho ideológico nunca são restritas a poucas pessoas.

O corpo gordo ainda enfrenta inúmeras outras dificuldades pessoais e sociais, principalmente com a família e com médicos. A necessidade da organização de um movimento de resistência é urgente e imediata. O seu corpo faz parte de quem você é, faz parte da sua identidade, é a maneira deliciosa e única segundo a qual você se apresenta diante do mundo. Abdicar dele é o verdadeiro pecado.

Obs.
a: A lista foi levantada por mim com base em comentários reais retirados da internet, com leve modificação para evitar a identificação.
b: Gordofobia pode ser ocasionalmente chamada de “lipofobia” também.
c: Referência ao texto “It’s a Big Fat Revolution”, de Nomy Lamm, o qual recomendo fortemente a leitura para quem se interessar por body activism.

Texto por Alexandrina Vitória Regina

Imagem

 

Imagem retirada do projeto da fotógrafa Isa Hansen. Projeto De dentro pra fora.

 

A mulher no mercado de trabalho

Existe um discurso recorrente de que nós mulheres, conseguimos igualdade quando se trata de emprego. Mas sabemos na pele que a realidade é um pouco diferente do que esse discurso costuma dizer.
Não é apenas questão de desigualdade salarial (em muitos cargos, mulheres continuam recebendo 30% menos do que os homens, mesmo tendo a mesma capacidade e currículo, e exercendo o mesmo cargo).
Em algumas áreas de atuação, o mercado de trabalho ainda é dominado pela maioria dos homens, e a capacidade da mulher é sempre colocada em dúvida.
Ainda existe a misoginia e o preconceito, e nós enfrentamos isso diariamente.

Também precisamos lembrar do caso de mulheres trans, que muitas vezes não conseguem emprego por conta do machismo e preconceito, e que acabam sendo marginalizadas pela sociedade.
Aqui, um relato de uma mulher que passou por situação de preconceito, onde sua capacidade de assumir o cargo foi colocada em dúvida. 
Será mesmo, que nós já conquistamos nossos direitos? Talvez seja hora de reabrirmos esse diálogo.

Amélia Autumn

Relato de Gabriela Nascimento. (pseudônimo)

Quem nunca ouviu frases do tipo ” a mulher está ganhando espaço no mercado de trabalho “, ” a mulher é respeitada no meio profissional “. Ou então quem nunca leu no jornal que ” o número de mulheres com carteira assinada subiu 5,93%?” ( fonte: http://www.brasil.gov.br/noticias/arquivos/2013/03/08/cresce-participacao-da-mulher-no-mercado-de-trabalho ).

Mas o caso é que temos que tomar cuidado com os números, eles podem mascarar detalhes. Ora, o número de mulheres com carteira assinada aumentou, este é o fato, mas em que tipo de área profissional?

Bom, para ilustrar melhor esta realidade, que está em processo de mudança usarei meu próprio exemplo.

Trabalho na área de comércio exterior, um seguimento ainda dominado pelos homens, e a algum tempo atras estava em busca de uma colocação no mercado. Durante minha busca fui chamada para uma entrevista em uma das maiores empresas do ramo alimentício no Brasil, neste momento não é de meu interesse citar nomes, apenas vamos usar a letra B para ilustra-la.

O local da entrevista era longe da minha residência, tive de tomar um ônibus, um metro e um táxi para chegar até a empresa B (o que me gerou um custo desnecessário, afinal estava desempregada e precisava segurar as despesas ).

Uma vez dentro da empresa fui encaminhada para uma sala privada para a entrevista. Me sentei, e comecei a contar um pouco sobre o meu currículo. Em um dado momento fui interrompida e deu-se inicio ao seguinte dialogo:

Empresa B: ” Seu currículo é muito bom, porém este departamento só tem funcionários homens. Nós não queremos contratar mulheres.”
Eu: ” Desculpe, não entendi seu posicionamento. “
EB: ” É que mulher você sabe como é…”
Eu: ” Não, não sei. Poderia me explicar ?”
EB: ” É que só tem homem neste departamento, e mulher sempre quer ser sensual, gosta de ser o centro das atenções, dar em cima…”

Neste momento eu me levantei e agradeci pelo tempo, e fui embora. Fiquei mais alguns meses desempregada e desanimada, afinal será que não haveria um espaço pra mim na profissão que eu queria?

Bom, para encurtar a história o fato é que meses depois consegui uma colocação na empresa L, a qual (coincidência ou não) presta serviços a empresa B. Na empresa L eu sou a única mulher em meio a dez homens, todos me respeitam como colega e como profissional.

Nem sempre a mulher tem a chance de conseguir uma colocação no mercado de trabalho com a profissão na qual ela escolheu exercer. Como podemos ver no relato acima, o fato dela ser mulher a prejudicou na entrevista. Até que ponto teremos de tolerar esse tipo de comportamento? Até quando nós mulheres vamos ser lidas dessa maneira?

Amélia Autumn